'I am so clever that sometimes I don't understand a single word of what I am saying.' Oscar Wilde

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At the end of the day

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Orna Donath, socióloga israelita publicou primeiro a tese de doutoramento, agora o livro 'Mães Arrependidas' (aqui). 'O arrependimento é uma posição emocional que faz a ponte entre o passado e o presente entre o tangível e o recordado'. Para ela o instinto maternal não é natural, é uma construção se não uma exigência da sociedade. A maternidade é uma experiência que, como qualquer outra, pode muito bem resultar em arrependimento. Como ênfase dessa posição, Orna faz uma demonstração nítida através das entrevistas que fez a 23 mulheres, digo mães, que se assumem arrependidas do caminho que levaram. Podiam ter feito tanto da vida, ter sido tanto, ter vivido tanto, se a maternidade não lhes tivesse boicotado o percurso. 'Mamã, mamã, mamã' - sempre - 'Vai ter com a tua mãe!' (Auch!). A todas estas mães Orna perguntou 'Se pudesse recuar no tempo, sabendo o que sabe hoje e com a experiência que tem hoje teria sido mãe / tido filhos?'. A pergunta, note-se, matreira, nunca é 'Não ama os seus filhos?' ou mesmo 'Eliminaria os seus filhos da sua vida?', mas antes 'Se voltasse atrás no tempo como se nada houvesse alguma vez acontecido, rasuraria a maternidade da sua vida?', e as mães responderam que sim, recuariam no tempo, não teriam tido um filho sequer, o grande erro das suas vidas.

Primeiro: a fantasia do quesito, se pudéssemos recuar no tempo, se não fôssemos filhos dos nossos pais, se vivêssemos em Marte?! Tanto quanto eu sei! Depois: a infalível evidência de que tudo o que uma mãe não fruiu foi por causa dos filhos, como se sem filhos tudo fosse garantido. The grass is always greener on the other side. Se esta asserção é estéril, afinal...

Até ao momento do nascimento do meu primeiro filho, a ideia de maternidade era também ela uma fantasia. Ele nasceu, o bebé mais bonito que eu algum vez havia visto, juro! Absolutamente perfeito. Passei horas, passo aliás, em perfeita contemplação. Nos dias seguintes ao nascimento do meu filho estava muito debilitada, tinha febre, vómitos, muitas dores, era verdadeiramente difícil para mim estar ali somente quanto mais cuidar de alguém. Então soube que a maternidade não suprime a minha existência, continuo a ter sono, fome, cansaço (muito cansaço!), vontade de fazer o que me dá prazer, fruir. A maternidade faz sim, reordena a priorização das minhas necessidades, a maternidade deixa que o meu sono, que a minha fome, que o meu cansaço (muito cansaço!), que a minha vontade de fazer o que me dá prazer, fruir, sejam ultrapassados pelas necessidades, vontades e prazeres dos meus filhos. A maternidade não exige que me anule, exige que me sacrifique,  o que até pode parecer, mas não é a mesma coisa.

Quase cinco anos passados, nada ficou mais fácil, com demandas agudas em rogo constante. 'Não tive um único dia na vida que fosse fácil!' Pois não! Mas há resposta para isto, o caminho para o tesouro, a chave do cofre, a solução para o puzzle: o amor, o tema de todas as canções. Se o barco naufragasse e a jangada só tivesse um lugar (dois! Em rigor, são dois filhos!), não seria para mim, seria para eles e isso não é nem uma demanda nem uma responsabilidade, é amor - o desdobramento do instinto de sobrevivência, extenso além de mim. At the end of the day, no fim, no último momento, na exposição da debilidade em que somos só nudez, o amor é o manto que nos cobre - o mesmo amor que cede o lugar na jangada. 'Mamã, mamã, mamã' - sempre - 'Eu é que sou a tua mãe!'

Não abdicaria a fruição dos meus filhos pela minha por nenhuma fantasia do mundo porque, no fim do dia, não há fruição maior que este amor.

Ninjago

sábado, 26 de agosto de 2017

Tenho dois filhos rapazes, são dois meninos, têm nomes masculinos, têm o cabelo cortado curtinho, usam roupas de rapazes, são dois meninos. São atraídos no corredor dos brinquedos para as bolas, os carrinhos e as figuras de acção. Gostam de ver desenhos animados que envolvam lutas e acção, por muito desenvolta que seja a Princesa Sofia eles acham-na muito aborrecida. Quando pinto as unhas, aproximam-se de mim e oferecem-se para ajudar, um pincel com tinta é tão divertido. Eu deixo. Se teorias houvessem que me levassem a acreditar que os interesses dos meninos são construídos pelos pais, os meus filhos desacreditar-me-as-iam. É espantoso ver como os filhos desenvolvem uma personalidade autónoma, educamos pois educamos, mas do que eles gostam é com eles.

Cá em casa vivemos um momento de fascínio por estes (malditos!) Legos Ninjago, todos apetrechados de espadas, carros voadores e inimigos ferozes. É espantoso porque aquilo vem tudo desmontado e obriga-os a pensar, a contar e a coordenar. Um horror para os pais: 1. é caríssimo; 2. os miúdos têm pressa de montar e acabamos sempre nós por perder horas a tentar entender aqueles manuais de instruções de trás para a frente para emendar os erros das crianças; 3. acabam sempre destruídos pelo chão da sala, como pepitas de ouro (são caríssimos!) que magoam os pés descalços. Se fosse eu a escolher o que é do interesse dos meus filhos, só teriam livros, e bonecos não montáveis. Mas não sou.

Aparentemente, que um menino é um menino e uma menina é uma menina ainda não é um dado isento de discussão.  Não compreendo a polémica da semana: diferentes cadernos de exercícios para meninas e para meninas (aqui, por exemplo). Um escândalo! Receio que haja aqui uma suspeita de um qualquer ataque à capacidade intelectual das nossas crianças. Já ninguém quer pensar que o filho ou filha tem o futuro comprometido pelo género. Estou em crer que este juízo é um tanto ou quanto precipitado. Estes são cadernos de exercícios que os pais podem (podiam) comprar para apoiar os filhos no estudo, não um manual obrigatório, comprar ou não estes livros seria uma decisão que caberia no espaço de liberdade reservado aos pais e filhos. Tenho dois filhos rapazes, e sei que, principalmente o mais velho, se revê imenso no género. Ele constatou isso como as crianças vêem o mundo, a brincar. Ele sabe que nas brincadeiras de lutas as meninas não alinham, e é por isso que os seus melhores amigos são rapazes. Acho que sempre assim foi. (Claro que esta visão, no limite, é muito redutora, a criança, como o adulto, tem diferentes dimensões a respeitar.) Nenhum dos meus filhos chegou ainda à etapa do compromisso que é o início do estudo. Mas entendendo que, cheios de energia para gastar, passar o tempo a resolver exercícios escolares pode não ser o que há de mais apelativo para os miúdos. Se eu tivesse que comprar um livro de apoio para o meu filho poderia muito bem apelar à sua motivação pelo facto de que o livro que a mãe comprara ser especial, especialíssimo, para meninos fortes e corajosos como ele. Do mesmo modo, se tivesse uma menina poderia muito bem apelar à sua motivação dizendo tratar-se de um livro especial, especialíssimo, para princesas. Sem nenhum mal, sem que aqui se revele nenhuma forma de manipulação, sem procurar desrespeitar ou ir além da liberdade dos meus filhos. E se os pais entenderem outra coisa qualquer, podem escolher outro livro de apoio escolar qualquer. Talvez a Porto Editora tenha ido um pouco longe demais ao produzir exercícios com distintos graus de dificuldade para menino e para menina. Não faço ideia da ideia por trás dessa decisão, mas, ao que parece, apenas meia dúzia de exercícios em cerca de oitenta vêem alterado o grau de dificuldade. Não creio que seja necessário ver nisso malícia, ver malícia em tudo.

'Lionel Asbo' de Martin Amis, Quetzal




Sinopse

Durante o expediente matinal na prisão, Lionel Asbo, um delinquente de médio porte de Diston - zona fícticia de Londres - recebe a notícia de que ganhou 139 milhões de libras na lotaria.
Último rebento de Grace, cuja prole aos 19 anos ascendia aos sete, Lionel partilha a casa com o sobrinho órfão adolescente, Desmond Pepperdine, e com dois pitt-bull, Joe e Jeff, que alimenta com uma dieta de tabasco e maus-tratos.
Uma vez posto em liberdade, a fabulosa riqueza catapulta-o naturalmente para uma vida de excesso e gastos estratosféricos que, em substância não difere muito do quotidiano de sarilhos e arruaças da anterior e, por isso, para as primeiras páginas dos tabloides: «O Tio Li - ele desapareceu e foi para a primeira página!». Lionel continua a preferir a pornografia à companhia de uma mulher (a pornografia que, com a prisão, constitui um dos pilares fundamentais da vida); persiste na educação férrea dos cães (outrora uma importante ferramente do negócio); e em não prestar qualquer tipo de auxílio financeiro a qualquer membro da família.
Enquanto Lionel desbarata a fortuna, a um débito alucinante e espreme todos os proveitos que pensa poder retirar da fama - Des, o sobrinho, está nos antípodas: é um rapaz inteligente e sensato, que procura no estudo e no trabalho, e numa relação estável, um sentido para a vida.

Um romance cómico, visceral, hiperbólico - uma sátira da Inglaterra contemporânea e da obsessão contemporânea pelo dinheiro e pela celebridade.


La Revue


Em 1998 o governo britânico criou a Anti-Social Behaviour Order (ASBO), uma medida que visa corrigir incidentes menores, um degrau abaixo da punição criminal. O ASBO foi o primeiro passo na carreira de Lionel, que leva a profissão de extorsionista e ladrãozeco tão a sério que incorpora ASBO no nome (renegando assim a família Pepperdine). 'Na prisão uma pessoa sabe onde está.' 'Pois sabe, tio Li. Está na prisão."

Esta hisória gravita vividamente em torno de Des Pepperdine, o sobrinho de Lionel. É preciso localizar a família - Des, a avó Grace, os tios com o nome dos Beatles, os cães Joe e Jeff - num ponto de crítica disfuncionalidade. Se podemos começar por acreditar que Lionel é só estúpido, que não é assim tão surpreendente que de um ambiente nefasto e sem amor surja um ser egoísta e egocêntrico, Des pode provar que o compromisso frente a frente com o conflito produz o carácter. Além de uma valente fortuna e um bilhete sem regresso para as primeiras páginas dos jornais, com o premiado bilhete da lotaria, o que Lionel realmente recebeu foi um poder que vai muito além do que a consciência o deixa governar, o dinheiro torna-se numa ferramenta perversa e ascorosa. À medida que o romance avança é completamente evidente que Lionel é mau. A verdadeira lotaria é a índole de cada um.

Há um segredo (horrível!) que nos é desvendado nas primeiras páginas e nos deixa desconcertados. É este segredo que dá ao romance uma aura de mistério e suspense  e que leva o romance a terminar em viragem de página compulsiva para um desfecho completamente inesperado.

Apesar do pano de fundo que é a miséria social Martin Amis, que podia ter construído assim um drama, consegue manter um coerente tom lírico e de comicidade. Isto é obra! A narrativa está tão inteligentemente construída que o essencial é apenas presumido, há aspectos que apesar de nunca  serem revelados também nunca deixam de estar patentes.

Uma nota final: existe na crítica de imprensa um dissabor em relação a este livro e ao autor, diz-se que se trata de uma caricatura mesquinha da Inglaterra, tão mesquinha que, num acto de anti-patriotismo, o autor se mudou para os States depois de publicar este livro!. 


Quebrando um longo silêncio, Lionel disse, «Estás a ver aquele uh, arquitecto que se matou, Des? Sir John qualquer coisa. A mãe dele estica o pernil e ele mata-se. E toda a gente se põe a dizer , Ah, ele estava deprimido, estão a ver, por a mãe dele ter esticado o pernil. Dizem sempre isso - e é uma treta. Não é que ele de repente tenha querido. Matar-se. É que ele de repente podia.»
«Como é isso, tio Li?»
«Estás a ver, há certas coisas, Des, há certas coisas que um homem só pode fazer depois de a mãe dele ter esticado o pernil.»

Dar tempo ao tempo

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Quando me cruzei com este artigo aqui, intitulado "Why My Family Doesn't Do Sleepovers", pensei, antes mesmo de o ler, "Oh, não! Da série: Tem andado a fazer tudo errado na educação do seu filho, temos aqui uma teoria novinha em folha para o fazer sentir mal!". Honestamente, pachorra para cada teoria! Mas, como a curiosidade matou o gato, não só li o artigo, como dei por mim, no fim, a concordar em alguns aspectos.

No fundo o que é dito no artigo, é que uma criança a dormir fora de casa, em casa de amigos, está muito mais exposta ao perigo de abusos sexuais. Não necessariamente por parte dos pais dos amigos, mas irmãos mais velhos, primos, amigos dos amigos. Nesta parte do artigo, eu disse, baixinho e só para mim!: menos, minha gente, menos! Na verdade, eu não conheço nenhum caso próximo de abuso sexual, e assim que me recorde, nem afastado. Sei que existe, obviamente! Eu não conhecer não significa que não exista. Não estou fechada na caverna, e isto não é uma alegoria. Sei que é (deve ser, acredito que seja!) um marco terrível na vida de uma criança. Mas, felizmente, é uma realidade que tenho bastante distante. Apesar de ser muito apologista do não há (ou há poucos) bons seres humanos, também não acredito que hajam assim tantos maus (ou tão mesmo maus!). Eu nunca fui assaltada, não tenho medo de sair à rua fora de horas, mas também sei que não devo andar com a carteira escancarada, ou meter-me em becos escuros à noite. Acho que, como em tudo, impera o bom senso.

Evitar que os filhos durmam em casa dos amigos dado o perigo de abuso sexual, parece-me exagerado - ao melhor estilo do permanecer em casa para evitar ser atropelado. Recordo-me de que, em criança, com uns oito ou nove amos, ouvi no telejornal a seguinte história: um prédio antigo ruiu no momento em que o seu único e ancião habitante estava sentado, justamente, no seu trono (vulgo pia, retrete ou sanita), o senhor tombou do segundou ou terceiro piso e veio aterrar agarrado às calças. Do que eu retiro que quando é para acontecer desgraça, ela acontece em qualquer lugar.

Voltando ao artigo, houve um aspecto que me fez pensar, a fragilidade das crianças. Em criança passar a noite em casa dos amigos é uma excitação. Lembro-me perfeitamente de ficar impossível de alegria com uma sleepover. Eu e as minhas amigas fazíamos planos, apresentávamos umas às outras o resto das nossas vidas além da que era passada na escola. A casa, a família, os hábitos, o cão, o gato, os brinquedos. Brincar em casa dos amigos era óptimo, passar a noite em casa das amigas era o auge. Mas ao lado desta excitação lembro-me que também sentia outras coisas, sentia que aquela família tinha rotinas e hábitos diferentes dos meus e que isso era estranho, não estou a falar de nada por aí além, mas o espaço era diferente e com ele os hábitos e a segurança que trazem. Eu sentia-me na posição de convidada, queria ser prestável, educada, não incomodar, por isso sei que se precisasse, por algum acaso, de pedir socorro (porque me doía a garganta, porque tinha frio, ou o que fosse), eu não o faria. Finalmente, sei que se as minhas amigas me dissessem que era normal fazer alguma coisa, eu aceitaria. Se os irmãos mais velhos me acordassem para, estou a excluir, redondamente, as questões dos perigos de abusos sexuais, fazer um disparate qualquer - sei lá ir brincar para a trepar ao telhado, eu dificilmente me oporia, não teria discernimento suficiente para reconhecer se isso afinak normal ou não naquele contexto. Por isso, sim, acho que as crianças são frágeis e vulneráveis. Cabe-me proteger os meus filhos, rodeá-los e dar-lhes ferramentas de amadurecimento sem que para isso os coloque em posições de fragilidade. Não faz mal nenhum tratarmos as nossas crianças como crianças e esperar que cresçam. Há, espera-se, tempo para tudo. Existe, para tudo, o momento certo. Há que respeitar o tempo de proteger, preparar e ensinar

Ah, a doce contagem decrescente para as férias!!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Valoroso infortúnio

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O valor do infortúnio é tão grande que, se dizemos a alguém 'Como és feliz!', em geral somos contestados.

Frederich Nietzche

Learn to let go

Enquanto meio mundo tem uma semana de férias no Carnaval para ir à neve, quinze dias na Páscoa para ficar com os filhos durante férias da escola, uma semana em Junho para aproveitar o começo do Verão, um mês em Agosto por causa do calor e, por fim, uma semana no Natal por causa do frio, a outra metade do mundo trabalha! Trabalhar quando meio mundo está em stand-by não é nada fácil (excepto no trânsito, que é fantástico!), para me dar uma ajudinha na minha produtividade (leia-se concentração) tenho por hábito ouvir música. Ora, compor playlists não é o meu forte pelo que recorro ao Spotify, mas aparentemente não tenho feito a coisa bem. Têm sido meses e meses a queixar-me que não consigo ter meia hora de música em condições sem reggaeton e shake that ass pelos ouvidos adentro. O meu erro: escolher as playlists com as músicas mais tocadas (em Portugal, no mundo, na europa), o Spotify mete ali estas listas mesmo à mão de semear e eu, parva e  preguiçosa, digo que sim. Certa vez (ontem, para ser precisa) fartei-me, mas não muito, e decidi variar... e graças sejam dadas a Deus, acertei. Foi por um acaso que eu descobri que afinal, e isto é importante que o mundo saiba, o Spotify tem playlists audíveis para pessoas com mais de dezoito anos que não estejam numa discoteca latina. A playlist chama-se 'Lançamentos da semana' (meu Deus, era só isto!), não posso negar que encontrei pelo meio um sertanejo do Michel Teló, mas enfim, tudo bem.



Nao posso ver cinco minutos sem os meter ao bolso.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

É recorrente colocarem-me a questão 'Como é que tu tens tempo para ler?', sim como é que tu, com dois filhos pequeninos, um trabalho, o estudo, um marido, uma casa para cuidar, roupa para tratar... Como é que tu te atreves a ter tempo para ler? A resposta é simples: sou fantástica e não gosto de dormir. Mentiras, sou apenas quase fantástica e adoro dormir. É que todo o tempo é tempo roubado e eu não posso ver cinco minutos sem os meter ao bolso. Um furto qualificado (não vamos entrar em penalismos a esta hora): o tempo em que dou atenção aos filhos e não lavo a loiça, o tempo em que estudo e não durmo, o tempo em que não atendo uma chamada de uma amiga, o tempo em que vou à praia, o tempo em que vou ao parque, todo o tempo é tempo roubado a alguém ou a alguma coisa. São 24 horas por dia, sete dias por semana, os anos que calharem. Não foi sempre assim, já me sobrou tempo, mas agora que é escasso e valioso não me detenho de o aproveitar, é bizarro para mim ter as mãos vazias. Ultimamente nem um filme do princípio ao fim consigo ver se não estiver a fazer outra coisa em simultâneo: a ler, a escrever, a pintar mandalas, qualquer coisa que possa reduzir o desperdício (fyi: estou ainda muito longe do objectivo). Gosto de imaginar o tempo como um eixo no gráfico de uma função. Tempo e espaço. X e y. Abcissas e ordenadas. A função é o que fazemos com o tempo no espaço, uma função crescente, infinito x=y, uma recta. Como se a vida fosse de facto uma linha recta, como se Cronos não tivesse caído de volta, para abaixo de zero, para o Inferno. O tempo é motivo e escusa, é culpa  e alibi. O tempo é o que fazemos dele.

Cronos, o deus grego do tempo, rebelou-se contra o pai. Poder-se-ia dizer que se rebelou contra o próprio pai, tratando se a assim a rebelião de um acto, além do mais, de ingratidão. Cronos rebelou-se contra o pai, destitui-o e tomou o seu lugar como governador do universo. Cronos, todo poderoso, governador do universo, teve sete filhos. Com medo que o destino além de cruel fosse justo (na ideia de Cronos de um olho por um olho! - justo é um termo perigoso!) vivia temente que um dia um filho seu se rebelasse, novamente, contra o pai, contra o próprio pai!, e lhe tirasse o lugar, por isso, cada vez que lhe nascia um filho, Cronos engolia-o. Quando em Creta Zeus nasceu, Raia, a mulher de Cronos, cansada (esgotada!), fez o marido engolir uma pedra em lugar do bebé, para que Zeus, trovão, vivesse escondido até chegar a sua vez de se rebelar contra o pai, contra o próprio pai. Zeus fez o pai vomitar os irmãos, destitui-o e tomou o seu lugar como governador do universo, para que assim a história de Cronos fosse, sobretudo, uma historia de humilhação.

Um feliz casamento da oratória

Muito antes de ver esta Ted Talk (sou uma assumida fã das Ted Talks) já eu havia respondido a um e-mail de spam que me oferecia uma fortuna em diamantes (ou lotaria, ou que seria?!) mas aparentemente não me saí tão bem, pelo que esta história é do James Veitch (e, consequentemente, não minha).


E continua...

O cigano

domingo, 20 de agosto de 2017

A minha pedagogia não é perfeita. Recorro não raras vezes ao instinto, amoroso na maior parte das vezes, tristemente cansado ou zangado noutras vezes. Suponho que aprendemos a ser pais com os nossos pais, mas quero acreditar que a minha relação com os meus filhos não é decalcada de outra relação entre outros filhos e outros pais, os meus, antes uma chance de critica que resulta muitas vezes na potenciação daquilo de que eu filha mais senti falta. Eles, como eu, fizeram, como faço, o melhor que conseguiram, o melhor que consigo. O meu braço não é pesado e está sempre mais disposto ao abraço do que à palmada. Quando os meus filhos se portam mal, a cada hora sim, repreendo, gesticulo (muito característico meu, diga-se em prol da verdade!), levanto a voz e e imponho as necessárias regras. Nesta casa, pelo menos, ninguém janta no sofá a ver o Beyblade na televisão, não se bate no irmão e não se atira com coisas para o chão. Oh, mas quando os meus filhos reagem num pranto, 2 e 4 anos (quase 3 e quase 5!), não lhes nego o colo. Aperto aquelas bochechas e encho-as de beijos!! Num cliché que nunca falha: são as atitudes deles que estao erradas, nunca eles que não são amados. Podem sempre regressar para aqui, para o meu ventre, para o meu seio. Eu acho que, parentalmente falando, eu sou o policia bom desta família. Evidentemente receio que lhes esteja a dar o sinal de que lá fora, o mundo também é assim, também tolera tudo, desculpa tudo. Não é verdade, a cada passo um limite, a escola é para crianças desta idade o mundo la fora e confio que já lhes é revelado bastante, o suficiente por enquanto.

Quanto aos métodos, quando a cara feia não resulta, educar é todo um acto criativo. O céu é o limite. E foi assim que nasceu o cigano. Estou em crer que a maioria dos pais recorre ao polícia: 'O polícia vem!', 'O polícia leva!', 'O polícia prende!', mas desde que ensinei aos meus filhos que caso se percam de nós na rua, devem procurar por um polícia, porque o polícia é capaz de encontrar os pais. A imagem do polícia está francamente muito mais perto da do super-herói do que da do vilão. Por seu turno, recorrer ao monstro pode ser bastante eficaz, mas traz efeitos secundários tramados: crianças com insónias que querem dormir armadas com pistolas de brincar, a luz acesa toda a noite, lágrimas e soluços, todo um drama imaginário. A minha melhor criação: o cigano. Que Deus me perdoe a xenofobia (há lá pecado maior no século XXI?!), foi só a primeira coisa que me passou pela cabeça num momento de desespero. O cigano é um senhor de meia idade, com barba cinzenta, pele rija queimada pelo sol, todo vestido de preto com um chapéu de abas largas, que todas as noites vai a casa dos meninos que se portam mal (Atenção, ênfase nisto: os meninos que não fazem o que os pais mandam!)  para os meter num saco e levar para longe. "O cigano tem brinquedos?" Não, filho, o cigano não gosta de crianças e não tem brinquedos. "O cigano tem comida?" Sim, filho, o cigano tem comida mas só para ele, para os meninos nem pensar, porque ele não gosta mesmo nada de meninos. "E o cigano tem cama para nós?" Era bom filho, mas não! Dormem todos no chão porque o cigano é pobrezinho e não tem cama!

Eu comecei por dizer que a minha pedagogia não e perfeita, mas acho que não disse o importante: funciona.


4Ever young

A juventude, que é apenas tão inocente quante baste, é como um atestado de incompetência que advém da óbvia inexpriência das mãos com falta de calos. Parece que só quem a atrevessou, a juventude, sabe que já lá não pode voltar. Um mar não mais navegável. Não se vê a outra margem. De um certo modo a cobiça comanda o entusiasmo do ensinamento de onde subjaz que ensinar é reviver, é a oportunidade de voltar ao ponto onde se pode ver o horizonte em que a vida é, de facto, uma tela, quase, quase, e aqui, mesmo só apenas quase, em branco.

A velhice não é a porta das oportunidades que se fecha com uma rajada de vento, muito ou pouco violenta. Uma fusão, uma infusão, Nem frio nem quente, eternamente morno, o velho quando começa a ser velho para nunca mais acabar. Infundem-se no espírito ao de leve e lenta, muito lentamente, primeiro a dúvida, a povoar o mundo que não abala, depois o remorso, as rugas, e, finalmente, polvilhada, uma ou outra crueldade.

Culpa de género

A recordação tem sempre também algo de imaginação. A memória, sendo feminina, por característica da Humanidade, que não traz culpa de género, se tem neutra, infiel.

A palavra do Homem, sem culpa de género, neutra, é só a forma expressa da verdade conjurada num castelo de cartas, jogo do sério, desconhecimento profundo e involuntário, conduzido pela natureza física e química do que é somente possível.

Writing to reach you

sábado, 19 de agosto de 2017


Aurore

De onde me vem este nome desta vez? Da bela adormecida é que não é. Ora em primeiro lugar eu queria um nome que pudesse servir de alter-ego: check! Depois, está claro, o significado: madrugada, a manhã, o começo, aparentemente não há nada que não possa acontecer no dia de hoje. Finalmente, eu estou a aprender francês, digamos reaprender, que é como quem diz estou a tentar recordar o que aprendi um dia e já esqueci. Ando a ler em francês, a estudar por uma gramática e a fazer exercícios, a ver filmes francófonos. Enfim, todo um mood com sotaque que arranha os rrs, pareceu me apropriado em termos de timing usar uma palavra francesa.

É só isso: Aurore.

(A Aurore precisava de um apelido, estamos em agosto Aurore Août pareceu-me bem. Tudo tem explicação, mas nem tudo tem que ser explicado.)

8 deitado

Admiro a imensidão, nem será bem isto uma admiração, chamemos-lhe um fascínio. Aquele sinal que é um oito deitado? Infinito. Um sinal, uma representação (Ceci n'est pas une pipe.), um símbolo. Este fascínio deve advir, provavelmente, desta tendência mesquinha que temos de adiar, esquecer, olvidar a evidente finitude que a mera existência implica. Este é um dado que é dado de barato.

Descobri, no entanto, que a infinitude não é apenas um apetrecho matemático, físico e químico. é literatura. Este meu êxtase. que me sai disparado da alma, sem piscar os olhos e sem cerrar os punhos. As palavras são uma massa moldável, barro seco quebrável que me rodeia. Lama para consumir, consumir consumir. Nunca lerei tudo. e nunca escreverei tudo. Nunca conhecerei todos os significados possíveis que desde a antiguidade tem sido montados, como um puzzle, ou um jogo lego. Todas as mensagens combinadas nunca alcançarão o fim, vai ser sempre possível subir mais um degrau em direcção ao céu (sempre inatingível, ininteligível). A literatura, como toda a arte, é um código cuja chave para o decifrar está na alma de quem sente o mesmo.

Já há bastante tempo que tenho vindo a sentir esta vontade de voltar.  Acho que é agora. Aurore vai ser o meu repositório de verdades, vai ser aqui que farei o cruzamento entre o que leio, o que escrevo, o que sinto, o que vivo. Vou tentar, vou tentar demarcar uma linha que não posso cruzar, a minha intimidade. De facto eu mantive durante algum tempo (dois anos!) um outro blogue, esqueci-me que atrás do visor há alguém. Não quero voltar a esquecer. A fotografia, que com muita pena não domino, tanto é um álbum de férias como uma expressão artística. O fotógrafo usa aquilo que o rodeia, e num jogo de domínio da luz, transforma-o em arte. Quem escrevinha faz o mesmo, usa o que o rodeia para criar, só isso. Acontece que o silencio nos protege e o ruído, enfim, o ruído é ruído. Diz o Oscar Wilde (e eu parece que esqueço!)  'Se soubéssemos quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo'. Confesso que ano sei como vou equilibrar a balança (raramente as confissões nos elevam).

A este propósito, terminei recentemente de ler 'Hoje estarás comigo no Paraíso' do Bruno Vieira do Amaral, e cá está exactamente tudo isto a que me refiro. Short story long, este é um romance autobiográfico, o BVA pegou num episódio da história da família: o assassinato de um primo quando ele ainda era uma criança (ele, o BVA), e a partir daí montou todo um romance em que a matéria prima são apenas as suas memorias e vivências ao longo do o resto da vida. Ele criou literatura a partir da a própria vida, como meio de transporte, como forma de expressão, como exposição de fotografia. Arte que, para o Saramago 'Não avança, move-se', não vai para lado nenhum. Ora, eu não acredito que o BVA tenha morrido de vontade de contar ao mundo inteiro que o primo mulato, o João Jorge, era um ladrão de porcos que morreu degolado. Caramba, que tragédia!, mas foi assim que ele criou ali um livro e pêras, com cada paragrafo mais espectacular que o outro.

Regressei, mas vamos com cuidado. (Que a vida são dois dias, hei de trazer algum humor para a equação, prometo que isto na vai ser só faca e alguidar).