'I am so clever that sometimes I don't understand a single word of what I am saying.' Oscar Wilde

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Outono ou a nova silly season

sábado, 30 de setembro de 2017

Nem todas as semanas são espectaculares, algumas são banais. A última semana do mês traz sempre uma ligeira pressão extra no meu rico job (emprego, meu Deus, soa pessimamente, uma pessoa não tem emprego, tem um job), quase não se dá por ela na verdade no meio de tanto toca a despachar, work, work, work... estão prazos a olhar para mim descarados e eu gosto de passar por eles com reverência, isto é: os prazos são para cumprir. Pois tanto que são para cumprir que acordei um dia desta semana e quando ia tomar banho me apercebi que não tinha pago o gás. Se é para esquecer que seja em grande, de preferência despida, atrasada e a levar com água gelada. Como boa burocrata liguei para a linha de apoio para descobrir que para solucionar o caso teria que me deslocar a uma loja das que abrem às 9h30 e fecham às 16h. Como sou tão diligente, lembrei-me de averiguar o estado da conta da água e depois de 45 minutos a ouvir música clássica descobri que não só a conta não estava paga, como ainda o corte já estava agendado para o próprio dia. Mais uma vez a resolução além de simples estava mesmo ali ao virar da esquina numa loja aberta também em horário de desempregado ou de chefe (manager, para empregar os termos correctos destes nossos tempos!). Tudo se resolveu, agora vai tudo em débito directo que não me voltam a apanhar numa destas (as minhas cartas ficam ali submersas no meio da publicidade na minha caixa do correio durante semanas, as vezes tempo demais!). Quem começa assim o dia não pode esperar milagres.

Um dia de cada vez também é vida.

Dos acontecimentos da semana destacamos:

1/ A morte de Hugh Hefner (aqui), o desafiador da moral e entrepreneur do pecado, responsável pela objectivação sexual da mulher para uns, e exímio defensor da igualdade e emancipação feminina, portanto as feministas dividem-se sobre o papel do homem e mas é certo que o senhor morreu. 

2/ O Cláudio Ramos lançou um livro sobre poupanças 'Os truques do Cláudio. Poupar de A a Z', infortúnio dos infortúnios parece que não lhe têm sido poupadas críticas  (aqui). Realmente, da minha parte, acho vergonhoso que não haja filtro editorial que impeça esta gente, que vive de criar polémica cor de rosa para não cair no esquecimento, de poluir as livrarias e matar eucaliptos. Pois que todo o mundo tem, ou deve ter, os seus guilty pleasures, uma futilidadezinha aqui e ali nunca matou ninguém e aligeira a alma. O ar é de todos, mas onde está a responsabilidade das casas editoriais em contribuir para a educação? E também, mas quem é que, no seu perfeito juízo, querendo aprender como poupar, vai procurar o Cláudio Ramos (guru da poupança, especialista pós graduado, doutorado, no ramo há mais de vinte anos, poço de sabedoria e experiência reconhecido internacionalmente), pois que não haja espanto em ouvir dizer que fazer xixi no banho é óptimo porque se poupa um dinheirão ao evitar o uso do autoclismo (sendo que para tomar banho, nota mental, convém pagar o gás).

3/ O Benfica, o nosso grande amor, calma, esse não é o Sporting?!, não importa! O Benfica perdeu 5-0 contra o Basileia na liga dos campeões (aqui). Tanto se me faz que o Benfica ganhe ou perca ou o diabo a quatro (aqui os diabos vermelhos), mas caramba, também não é preciso humilhar.

4/ Foi resolvido o mistério da Grande Pirâmide de Gizé - Como foram capazes os egípcios de transportar 140 mil toneladas de pedra mais de 800 km? Resposta: de barco. (aqui). É muito simpático da parte dos senhores arqueólogos terem resolvido o mistério durante o meu tempo de vida, eu já não conseguia dormir, atormentada de sobremaneira.

5/ O Salvador Sobral, por quem tenho imensa estima está, parece, à espera de ser transplantado nos cuidados intensivos do HSC (aqui) (Conheço esta unidade, já passei por lá com um dos meus filhos, é espantosa, muito humana e dotada, mas nunca lugar que se recomende a um bon vivant.). Espero que o miúdo se safe (não estaria na situação que está se não estivesse verdadeiramente em perigo), é bom ter gente desta geração inteligente, diferente, emocional e sensível. É bom haver gente capaz de, não só criar arte como levá-la às pessoas, nem que seja uma só vez. Alguém que não fique com os pêlos do braço eriçados ao ouvir este rapaz cantar não merece o meu respeito.

6/ Apanharam uma menina a roubar as pipocas do Princípe Harry (aqui) e fizeram disso uma notícia. Gotta love the brits.

Às vezes os dias são só banais, mas não o dia de amanhã, o dia de amanhã vai ser especial.




P.S.: Não esquecer - Domingo é obrigatório encher o Instagram com fotografias do boletim de voto. Faça-se, amanhã, reflexão.

'A menina dos livros' de Oliver Jeffers e Sam Wiston, Presença

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Oliver Jeffers e Sam Wiston venceram o Prémio Bologna Ragazzi 2017, um dos mais prestigiados prémios de literatura infantil, com este registo absolutamente encantador. (Incrivelmente maravilhosos, também do Oliver Jeffers  são os livros: 'O dia em que os lápis desistiram' e 'O dia em que os lápis voltaram a casa' - é que são mesmo incríveis!)

Por vezes, à noite, quando me deito para ler, os meus filhos juntam-se a mim. O o mais velho pede para ser ele a virar as páginas quando termino e o mais novo pede para ele um livro, lá vai contando a história atabalhoadamente. Diante do imediatismo a tantos níveis e em tantos momentos pretensamente proposto, gosto de ensinar os meus filhos a parar e a imaginar. 'A menina dos livros' é um livro cheio de abstracções que as crianças ainda não podem compreender mas que não deve ser obstáculo nenhum, é um livro despertador de pensamentos, a história de uma menina que vive no mundo das histórias e convida os pequeninos leitores para a acompanharem. Só isto. A história é ilustrada num modo em que o mar, os monstros e as montanhas são aglomerados de palavras escritas que dão forma a estas imagens. Com os dois sentados de pernas à chinês de frente para mim, sentada de pernas à chinês também e com as costas do livro para mim, deslindo 'Se vocês fecharem os olhos e pensarem numa montanha porque eu vos digo a palavra montanha, conseguem ver, de facto, uma montanha, não conseguem?', eles dizem que sim e que a montanha tem neve. 'E se eu vos disser que na montanha está a casa de madeira do lobo mau, vocês também a conseguem ver, não conseguem?', eles assentem entusiasmados e acrescentam que o lobo está a correr em fuga para casa cheio de medo do caçador com a espingarda. 'E isso são as histórias!', explico, as palavras permitem-nos conceber lugares, lances e peripécias muito além do corpóreo e tangível, um super poder para ver o invisível e um precioso estímulo para a invenção.



O universo é feito de histórias, não de átomos.
Muriel Rukeyser


P.S.: A gerência lamenta imenso a qualidade das imagens e justifica-se dizendo 'É o possível!'.

À rectaguarda

domingo, 24 de setembro de 2017

Se caminhasses num terreno plano, se tivesses a boa vontade de caminhar e desses apesar disso passos à rectaguarda, então tratar-se-ia de um caso desesperado; mas como sobes um pendor tão escarpado como tu próprio visto de baixo, os passos para trás só podem ser provocados pela natureza do terreno e não tens que desesperar. 

Franz Kafka

Back to school

Porque é que os meus filhos andam num colégio? Porque é que os meus filhos andam neste colégio e não noutro? Antes de mais porque eu escolho, porque eu tenho liberdade para escolher.

O debate sobre a educação surge muitas vezes poluído por uma lusitana corrente de bota-a-baixo, cheia de críticas impulsivas e coléricas, numa grande caldeirada de sindicalismos, política, politiquice e sabe-Deus-o-quê. A educação tem sido um tema sempre presente na minha vida, a minha avó foi professora no Estado Novo e a minha mãe foi professora no tempo que se seguiu, assisti enquanto crescia à contenda entre as duas gerações, a minha avó que foi professora da minha mãe e dava reguadas aos alunos que não sabiam a tabuada, a minha mãe que se esforçava por deixar a professora na escola e ser apenas nossa mãe, nunca nos tratou como alunos e durante a carreira lutou pela abolição dos trabalhos de casa, tem toda uma teoria em como os trabalhos de casa têm um impacto negativo na relação entre a família e a escola (da minha parte, confesso, embora conheça obviamente a teoria, ainda não defini exactamente a minha posição sobre o assunto: reconheço prós, contras e posições moderadas. Conto para o ano, quando o meu filho mais velho chegar ao primeiro ano, ter bem consolidado o meu entender sobre os trabalhos de casa).  Eu não segui uma carreira na área da educação (tenho zero vocação e zero paciência!) mas sou agora mãe e a discussão sobre a educação e o desenvolvimento escolar interessa-me.

Quando os bebés nascem é tudo desconhecido, não entendem o que se passa no meio que os rodeia e por isso o cérebro das crianças está preparado, durante a infância, para absorver o máximo, tudo é aprendizagem, todos os momentos são de educação. Quando os acordamos, quando os levamos à escola, quando estão no acolhimento, na sala, no almoço, quando vão às actividades extra-curriculares, quando os vamos buscar, quando lhes damos o jantar e quando tratamos deles para os deitar, as crianças, os meus filhos, estão a aprender, por isso escolher onde passam a grande parte do dia, a parte do dia em que têm o máximo da energia e da atenção, deve ser uma escolha cuidada e dedicada. Se podemos escolher o que queremos vestir, comer, consumir, se podemos escolher entre trinta marcas de iogurtes, porque haveremos de empurrar os miúdos para a escola, que como manda a regra, a morada da nossa residência obriga? Independentemente de os projectos educativos serem ou não do nosso agrado, independentemente de nos revermos ou não com o que é feito naquela escola! Dos anos em que acompanhei a minha mãe por diferentes escolas, das escolas por onde passei e também pela experiência que tenho enquanto mãe, posso garantir que as escolas não são todas iguais, pelo contrário, cada uma tem um ambiente e uma cultura distinta e única, do mesmo exacto modo reconhecemos que não há duas pessoas iguais mas só escolhemos uma para casar (de cada vez, pelo menos!), assim devemos o mesmo amor ao escolher a quem entregamos a tarefa de cooperar na educação dos nossos filhos.

Depois do tempo de creche do meu filho mais velho (ambos os meus filhos tiveram um excelente cuidado que foi de encontro ao que precisavam nessa fase) e antes de estar no colégio actual, desenhámos para ele um trajecto diferente, escolhemos para ele, e seria para o irmão também assim que chegasse aos 3 anos, uma escola em particular onde o meu marido fez a maioria da escolaridade. O meu marido trazia tantas boas recordações e aprendizagens dessa escola que juntos idealizamos e acreditámos que seria adequado prosseguir ali o ensino dos nossos filhos. Foi uma desilusão para ele que viu que afinal já nada é como era, para mim que caí ali e, principalmente, para o meu filho.

Nesta escola de que falo, as crianças. no pré-escolar são como que uma carga a gerir, tudo é mais uma questão de logística do que de educação, interessa que as crianças façam alguns trabalhos, desenhos e colagens, que estejam alimentadas e durmam a sesta. No acolhimento, manhã cedo, no Verão como no Inverno, nos dias de sol como nos dias de chuva, o meu filho de 3 anos, que entrou para ali ainda com 2, só não ficava no recreio, debaixo de um telheiro num banco sentado à espera para ir ter com a educadora porque eu me opunha. No fim do dia ficava fechado numa sala de aula do primeiro ciclo com crianças até aos dez anos sem fazer rigorosamente nada, só à minha espera. Quando perguntei pelo projecto educativo para a sala ninguém me soube responder. Quando perguntei quais os objectos do trimestre ninguém me soube responder. Quando perguntei como estava o desenvolvimento do meu filho disseram-me que fazia muitas birras mas estava a melhorar. Quando o meu filho me deu o presente do dia da mãe entregou-mo dizendo que a educadora o havia feito para mim, 'Mas ajudou a professora a fazer, não ajudou?', 'Não, foi a Mila que fez'. 

Foi um ano horrível e a culpa foi toda nossa, que não fizemos suficientemente bem o nosso trabalho e deixamos a criança ali. Felizmente os miúdos têm uma velocidade que não é a nossa e recuperam num instante.  Assim que parei de me iludir e compreendi todos os sinais de uma vez por todas de que aquela não era a escola que eu queria para o meu filho, procurei alternativas, era urgente mas ainda assim tive que esperar até o término do ano lectivo, não podia fazê-lo passar por adaptações sucessivas até encontrar a escola que nos fizesse sentido. No ano seguinte, que foi o ano passado, o meu filho entrou para este colégio onde está agora, e este ano o irmão juntou-se-lhe. Na minha liberdade escolhi este colégio porque sinto que o potencial dos meus filhos, esta magnífica capacidade de absorção na infância, é aproveitada e estimulada. O colégio preocupa-se com os referenciais de conhecimento e também com a formação enquanto pessoa, são os adultos de daqui a vinte anos que estão em formação, sinto a paixão dos profissionais e a responsabilidade do colégio. As crianças são uma tela em branco em constante revelação e é preciso estar atento a cada uma para ver o que revela, quais as aptidões e dificuldades, cada criança é um projecto individual de amor, o professor conduz e lidera o caminho de mãos dadas com os pais porque todos os momentos são educação. É necessário um ensino rigoroso, bem pensado e bem implementado e é por isso que os meus filhos de 3 e 5 anos (quase, diga-se, por ora 2 e 4!) têm aulas de inglês diariamente (todos os dias!), têm matemática  e têm programação. Na sala dos cinco anos o meu filho está a trabalhar a consciência fonológica e a preparar-se arduamente para a entrada no primeiro ciclo já no próximo ano. No acolhimento eles ficam numa sala do pré-escolar com uma educadora a brincar antes de começar o trabalho de sala e no prolongamento fazem jogos e ouvem histórias. A nós pais são constantemente dadas dicas para continuar o trabalho da escola: dizemos 'Well done!' em casa e substituímos algumas expressões corriqueiras do dia-a-dia pelas mesma expressões em inglês por sugestão da professora de inglês, contamos os degraus para ajudar com a matemática e perguntamos aos nosso filhos em viagem no carro quais os nomes dos planetas. Tudo tem uma razão e a razão está patente. O colégio transpira inovação, esforço, criatividade e, pasme-se!, tradição. Eles crescem e aprendem cheios de alegria e eu com eles.


Quando os meus filhos choram e a Reentré

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O meu filho mais velho hoje chorou meia hora sem parar porque queria jantar hambúrgueres em vez de douradinhos. Meia hora! O meu filho mais novo chorou meia hora porque queria jantar bolachas com chocolate. Mais meia hora! Eu padeço de enxaquecas, um horror, são dores de cabeça violentíssimas, deixam-me de rastos, parece mesmo que fui atropelada por um camião e o meu cérebro ficou feito em papa, sem exagero nenhum.

Uma mãe aprende a viver com o choro dos filhos. Na maioria das vezes não choram de dor, o que é um alívio. Choram de irritação, querem desesperadamente qualquer coisa: um brinquedo, um desenho animado ou bater no irmão, e não arranjam forma melhor de o dizer, face às contrariedades, se não chorar. Se ser mãe não é fácil, é por isto, porque quando choram se frustram eles que não têm o que querem e eu que não os acalmo assim tão facilmente. Deve haver o termo para isto, é um fenómeno. Quando lhes dói a barriga, um remédio caseiro de colo com beijos e abraços é suficiente para secar as lágrimas. Mas para as birras, seriously, não posso dar o que não tenho (não há hambúrgueres em casa) e também não posso deixá-los fazer o que lhes faz mal. Não posso deixar fazer o que está errado. Não vou tão longe para dizer que não lhes posso ensinar que com o choro alcançam o que querem, embora essa seja a teoria da maioria, eu acredito que o que eles não têm é capacidade para lidar com o que sentem, não lhes é fácil compreender que chocolate ao jantar não é assim tão boa ideia, ou que mais um brinquedo não lhes é assim tão indispensável. São momentos de crise, quando não reagem ao diálogo, aos abraços, às sacudidelas do pó, começo a agir mecanicamente, é difícil mas a mãe sou eu e não posso perder o controlo da situação, 'Entra', 'Sai', 'Mais baixo', quando de súbito se acalmam, palavra de honra que tão depressa como aparecem, as birras desaparecem., espremo-os de abraços. Estão tristes porque não têm/fazem qualquer coisa que queriam mesmo, não têm, porque eu entendi que não podem ter/fazer, mas há consolo para a tristeza. Isso sim, quero que aprendam, que a derrota existe e é uma possibilidade, mas há sempre o depois,  a oportunidade para lidar com ela.

É que esta semana reentrámos, é incrível como me habituo tão bem às férias (duas míseras semanas) que quando regresso ao labor parece que tive um ano de licença sabática. Demorei dois dias a inteirar-me dos quinhentos mil e-mails por ler (números redondos, entendamos!). Um sonho, re-acostumar-me a viver em permanente privação do sono (tenho ideia que toda a gente tem aquele colega, fresco e fofo, irritante que dorme 5 horas por noite, diz ele 'Não preciso assim tanto de dormir.', que vai ao ginásio todos os santos dias e só come comida saudável - por outras palavras: eu quando crescer!), a acordar cedo as crianças, a obrigá-las a não se deitarem tarde, a fazer quilómetros contra o sol com motas a ultrapassar pela direita a toda hora, e a preparar refeições em contra-relógio. Uff.. Está a ser uma semana incrível. Acho que estou a precisar dos meus cinco minutos. Era mais fácil aturar as birras sem stress. 

Sabe-me bem, ao final do dia, deitar-me meia hora com os meus filhos, depois de contar um história e aceder a não os deixar sozinhos quando apago a luz. Sabe-me bem deitar-me cansada, exausta, estoirada, por ter dado o litro no que faço, no trabalho, porque respondi, resolvi, andei com as coisas para a frente; por ter ido buscar as crianças, feito o jantar dado banhos, porque continuei a educá-los. Estes cinco minutos, todos preenchidos, realizam-me. O meu compromisso é fazer com que estes momentos sejam dignos de saudade. Um dia quando for reformada, com os meus filhos ocupados em Wall Street ou a operar crianças na Namíbia, vou estar nas ilhas Fiji (é nisso que acredito quando credito o meu PPR) a recordar com alegria nostálgica estes dias e estes serões de loucura até às nove e meia da noite, moribunda, mais para lá do que para cá, a jogar o jogo da glória e a colar cromos (truques para ajudar as crianças a identificar os números e a contar.)

Por ora, é a reentré 2017.

Resultado - Passar bem #1 'O Pintassilgo' de Donna Tartt, Presença

Et voilà! O resultado do passatempo.

Este passatempo merece uma nota. Isto de criar um blogue causa em mim uma grande confusão existencial. Se por um lado me dá gosto escrever, manter e mostrar, por outro sinto que se trata de consentir num certo voyeurismo. É-me difícil digerir e encontrar balanço no meio deste transtorno cibernáutico. O passo seguinte a criar um blogue é captar audiência. Todo um Facebook, Instagram e caça ao like para o qual não sou especialmente vocacionada. Lancei este passatempo, eu tenho ideias estupendas, com o objectivo claro e assumido de aumentar os números. O passatempo não foi um sucesso, e cá estou com o discurso de derrota em dia de eleições. O meu coração bem que se poderia ter despedaçado, se o meu blogue não tivesse sido criado, em primeiríssima instância, para dar asas à minha vontade de escrever (mal ou bem, not under discussion!). Assim sendo, não me apetece saltar borda fora do barco (ainda que fosse a tempo de nadar até à margem), mas também não creio que tão depressa me vá meter noutra destas.  

Posto isto, obrigada aos que participaram (passito, a passito.), aos que lêem (pouquito, a pouquito), e aos que  que gostam (suave, suavezito). Batem forte cá dentro. Não vá isto o Aurore tornar-se um meta-blogue, suponho que não seria o primeiro, vamos lá anunciar o vencedor. 

Tchanam... Parabéns à Andreia Morais. Vais receber um e-mail com mais informação. O  'O Pintassilgo' da Donna Tartt é absolutamente fantástico, vais adorá-lo. Anseio o feedback, se não gostares, olha, aí é que salto da proa. (Não, não estou a falar a sério, podes não gostar, embora eu não conceba como!).

Death tear us apart

domingo, 17 de setembro de 2017

A minha avó morreu. Não essa, a outra. Eram quatro avós quando nasci, depois três, dois. Agora resta uma. Morreu a minha avó Victória, com um c antes do t. Antes do ioga ser moda, a minha avó meditava descalça no meio do campo, antes de vegetarianismo ser alguma coisa, a minha avó só se alimentava de plantas e raízes e extractos sabe-Deus-do-quê. Há mais de trinta anos que não ia ao médico. Trinta? Quarenta! Numa recusa de doença. Há um mês, o meu pai e os meus tios, como sempre faziam, foram visitá-la, estava subitamente amarela, prostrada e demente. Enganaram-na e levaram-na a um hospital. Esta dimensão de doença não existe já no nosso tempo. Não se queixava com dores, com náuseas, tonturas ou desconforto algum. Tinha um tumor tão grande que lhe enchia o estômago, e só aí, quando já não havia espaço para alimento, o corpo deixou de obedecer aos seus comandos. Operaram-na, antes de mais para dar lugar a comida  e viram que todo o corpo, todos os órgãos estavam contaminados. Cancro. Não havia nada que pudesse ser feito. Que tenha sobrevivido tanto tempo para morrer desnutrida é espantoso. Durante todos estes anos viveu despaliativamente.

De quem era a vida dela? De Deus? Do Führer? Da sociedade? Da família? Quando confrontados com a necessidade de uma decisão. Levá-la, interná-la, tratá-la. Não sabíamos o que tinha, e quando não há tempo para reflexões profundas sobre o que é ético, moral, correcto, somos guiados pela intuição e pelas crenças profundas. Somos humanistas, e a vida é o bem supremo, a defender contra tudo. Não há tempo para posar a questão do conflito entre a valoração da vida e da dignidade da vida. A vida vale per se? Ou tem uma aura que lhe confere valor? A dignidade? A vida é valorada individualmente, como propriedade do seu detentor? Pela sociedade, numa medida colectiva? Por Deus? Pelo Führer? A negação do tratamento é suicídio? Existe um benchmark de vida? É eutanásia? O suicídio é o culminar fatal de uma doença, depressão, tristeza e angustia crónica e inultrapassável, um estado emocional. A eutanásia  é uma escolha racional. Quem afere a racionalidade? Quem é o legítimo decisor? Prolongar uma vida condenada é rebaixar-lhe a dignidade? O que é, afinal, a maravilhosa oportunidade de viver? Solo para todas as coisas. Na Grécia antiga, o senado dispunha da vida dos velhos e incuráveis. Se não traziam valor para a comunidade, eram humanizados e dispensados, dados a tomar veneno num cerimónia honrosa. Em Atenas, Platão, na República escreveu 'Estabelecerás no Estado uma disciplina e jurisprudência que se limite a cuidar dos cidadãos sãos de corpo e de alma, deixar-se-ão morrer aqueles que não sejam sãos de corpo.' Clássico? Neo-clássico? Pós-neo-clássico? Onde é que já vai Platão? Onde estamos nós agora? Jesus que superou a morte e tratou os intratáveis, repôs o humanismo a uma escala universal. Para todos. O luto é animal. O que é então humanidade? Não temer o luto? Na capela dos ossos, em Évora, mesmo à entrada, está escrito 'Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos'.

A minha avó viveu os últimos quinze dias de vida aliviada das dores e do desconforto pelo tratamento paliativo, revoltada por não estar a morrer no seu colchão. Mas quem haveria de saber? Morreu, permanentemente. Enterrada no cemitério, para onde foi levada no caixão que carregaram os três filhos homens, com os que vieram e foram antes de mim. À minha espera e à espera dos meus filhos. Não vai sentir o calor do próximo Verão, nem as chuvas do próximo Outono, já a chegar. Morreu. Acabou. Não é mais que as minhas memórias conspurcadas pelo que é irreal, pelo que podia ter sido, nas memórias a imaginação e a realidade confundem-se, trespassando cá e lá uma fronteira que não se sabe bem onde começa e onde acaba. Morreu. Enquanto a velámos, estava ali um corpo, amarelo, encerado, encarcerado, acabado, com as rugas que lhe sobreviveram e o cabelo cinzento, lavado e penteado. A minha avó Victória, com c antes do t, não estava ali. Morreu. Não sabe quem sou porque não existe para saber. Morreu. Nós, as sete netas, virámos costas ao cemitério onde ela não ficou, porque não está em lugar nenhum. O corpo deixado entre os que existiram antes do mundo que eu conheço. Morreu. A caminho do Céu.

The Man Booker Prize - SHORTLIST 2017

sábado, 16 de setembro de 2017




4321 de Paul Auster (Faber & Faber), com edição portuguesa pela ASA

On March 3, 1947, in the maternity ward of Beth Israel Hospital in Newark, New Jersey, Archibald Isaac Ferguson, the one and only child of Rose and Stanley Ferguson, is born. From that single beginning, Fergunson's life will take four simultaaneous and independent fictional paths.

Four Fergusons made of the same genetic material, four boys who are the same boy, will go on to lead four parallel and entirely different lives. Family fortunes diverge. Loves and friendships and intellectual passions contrast. Chapter by chapter, the rotating narratives evolve into an elaborate dance of inner worlds enfolded within the outer forces of history as, one by one, the intimate plots of four Fergusons' stories rush on across the tumultuous and fractured terrain of mid-20th century America. A boy grows up - again and again and again.


History of Wolves de Emily Fridlund (Weidenfeld & Nicolson)

Linda, age 14, lives on a dying commune on the edge of a lake in the Midwest of America. She and her parents are the last remaining inhabitants, the others having long since left amid bitter acrimony. She has grown up isolated both by geography and her understanding of the world, and is an outsider at school, regarded as a freak.

One day she noties the arrivalof a young family in a cabin on the opposite side of the lake. She starts to befriend them, first their four-year-old son Paul, and then his young mother Patra, who is also lonely and isolated. For the first time she fees a sense of belonging that has been missing from her life.

Leo, the father, is a university professor and an enigmatic figure, perpetually absent. When he returns home, Linda is stunned by the family unit. Desperate to be accepted again, she struggles to resume her place in their home and fails to see the terrible warning signals, which have such devastating consequences


Exit West de Mohsin Hamid (Hamish Hamilton)

In a city swollen by refugees but still mostly in peace, or at least not yet openly at war, Saeed and Nadia lock eyes across their classroom. After a whle, they talk, he makes her smile and they start to fall in love. They try not to notice the sound of bombs getting closer every night, the radio announing new laws, the curfews and the public executions.

Eventually the problem is too big to ignore: it's not safe for Nadia to live alone and she must move in with Saeed, even though they are not married, and that too is a problem. Meanwhile, rumours are spreading of strange black doors in secret places across the city, doors that lead to London or San Francsc, Greece or Dubai. One day soon the time will come for Nadia and Saeed to seek out one such door, joining the great outpouring of those fleeing a collapsing city, hoping against hope, looking for their place in the worlds.


Elmet de Fiona Mozley (JM Originals)




Daniel is heading north. He is looking for somone. The simplicity of his earyblif with Daddy and Cathy has turned sour and fearful. They lived apart in the house that Daddy built for them with his bare hands. They forged and hunted. When they were younge, Daniel and Cathy had gone to school. But they were not like the other children then,  and they were even less like them now. Sometimes Daddy disappeared, and would reurn with a rage in his eyes. But when he was at peace. He told them that the little copse in Elmet was theirs alone. But that wasn't true. Local men, greedy and watchful, began to circle like vultures. All the white, the terrible violence in Daddy grew.

Elmet is a lyrical commentary on contemporry Englih society and one family's precarious place in it, as well as an exploration of how deep the bond between father and child can go.


Lincoln in the Bardo de George Saunders (Bloomsbury Publishing), com edição portuguesa pela Relógio d'Água (Assim, de repente, a Relógio d'Água é a minha editora favorita, nunca me falhou. A propósito, um artigo giro do DN aqui.)

On 22 February 1862, two days after his death, Willie Lincoln is laid to rest in a marble crypt in a Georgetown cemetery. That very night, shattered by grief, his father Abraham arrives at the cemetery, alone, under cover of darkness.

Over the course of that evening, Abraham Lincoln paces the graveyard unsettled by the deeath of his beloved boy, and by the grim shadow of a war that feels as thoough it is without end. Meanwhile Willie is trapped in a state of limbo between the death and the living - drawn to his father with whom he can no longer communicate, existing in a ghostly world populated by recently passed and the long dead.

Unfolding in the graveyard over a single night, narrated by a dazzling chorus of voices, Lincoln in the Bardo is a thrilling exploration of death, grief and the deeper meaning and possibilities of life.


Autumn de Ali Smith (Hamish Hamilton), com edição portuguesa pela Elsinore


How about Autumn 2016? Daniel is a century old. Elisabeth, born in 1984, has her eye on the future. The United Kingdom is in pieces, divided by historic once-in-a-generation summer.

Autumn is a meditation on a world growing ever more bordered and exclusive, on what richness and worth are, on what harvest means. This first in a seasonal quartet casts an eye over our own time. What are we? What are we made of? Shakespearin jeu d'esprit, Keatsian melancholy, the sheer bright energy of 1960s Pop art: the centuries cast their eyes over our own history-making.


From the imagination of Ali Smith comes a shape-shifting series, wide-ranging in timescale and light-footed through histories, and a story about ageing and time and love and stories themselves.

O nosso Tony

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Se não fosse triste , era cómico. Uma pessoa acorda, vê as notícias e descobre que o Tony, o querido Tony do povo, afinal é um aldrabão. Há anos a plagiar música e ninguém vê nada. Todo um mar de senhoras de meia idade caídas de amor pelo Tony e vai-se a ver é um impostor. 

Acho um escândalo que só passado anos é que uma coisa destas seja dada a conhecer. A opinião pública, coitada, é tão manipulável, só se sabe quando alguém (um ser misterioso de luvas brancas) quiser que se saiba. É um triste sinal dos tempos (será dos tempos?!), tudo é mais importante que qualquer essência. Sucessos, sucessos, sucessos. Bilheteiras, casas cheias. Dinheiro, dinheiro, dinheiro (nunca ninguém me vai ouvir dizer que o dinheiro não tem a sua importância, mas deve haver uma fronteira entre para o razoável e a ganância desmedida).

Nada temas, daqui a uma semana já ninguém se lembra e já temos a família Carreira em grande no Pavilhão Atlântico. Corja de invejosos.

Ah e tal, ele ainda não foi julgado. Pois não, mas eu ouvi as músicas e se não são cópias umas das outras , então é melhor o Tony não se enfiar em mais nenhum avião ou começar a jogar no euromilhões. É que acertou na mouche.


Girls just wanna have fun (Férias Loucas)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Eu é que me sei divertir. Resignei-me que não vou conseguir mudar de casa tão cedo. Trabalhamos em Lisboa, as crianças estudam (aprendem, vá!) em Lisboa e nós moramos em Oeiras, a uns loucos vinte quilómetros. Na nossa inocência, ingénuos, achámos que jeitoso, jeitoso era vivermos na capital. Mas parece que a capital é sítio de turista ou de investidor chinês, e uma casa de família que não seja num terceiro andar sem elevador com 65 m2, custa para lá de um balúrdio, além de muito dinheiro, comprar uma casa pelo dobro do que valia há meia dúzia de anos é um mau negócio. Pelo que lá me convenci que se é para viver em Oeiras (que tem mar e jardins e todo blá blá blá da qualidade de vida para quem passa o tempo em Oeiras, o que não é bem o nosso caso), que seja em condições. Volta e meia ainda pondero ir comprar uma vivenda no Ribatejo ou em Mafra, mas depois passa Agosto, que não tem trânsito cosmopolita, e a ideia evapora-se num instante. A ser verdade os rumores de que a Madonna comprou uma casa (um palacete do século XVIII) em Sintra para viver e tem os miúdos a estudar no liceu francês, ela ou não equacionou bem a coisa ou perdeu a cabeça (vai na volta leva as crianças à escola de helicóptero).

Adiante, como há algum tempo que pensamos em mudar de casa a qualquer momento,vamos adiando comprar móveis e fazer arrumações profundas, afinal a ideia era meter tudo em caixotes mais dia menos dia. Até que me fartei, tirei férias para mudar de casa sem ir para lado nenhum: tirar tudo dos móveis, encaixotar o que já não usamos, separar roupa que já não serve (o que a minha roupa implora por uma segunda oportunidade, a desgraçada, a olhar para mim com aqueles olhos de carneirinho mal morto. Tenho que ser forte, que não se imagina. 'It's over, move on with your life!, Fi-ni-to!'), reciclar os brinquedos, dar finalmente um beliche às crianças, a ideia é que esta casa se torne tão ordeira como um quartel, vão dormir num beliche como se estivessem na tropa.

Antes da ordem vem o caos, há que destruir para construir, quero acreditar que sim!, para já estamos no caos, parece que o Irma veio dar um saltinho à minha casa. Mas tirando esse insignificante detalhe, isto estão  ser férias do mais zen possível, a satisfazer o meu OCD (Obsessive-Compulsive Disorder) latente. Nada sabe tão bem como orrganizar o roupeiro por cores ou meter nas gavetas as meias todas viradas para o mesmo lado. Ahhh, satisfaction!!

Tenho passado metade das férias no IKEA (já agora, é impressionante, deve ser o lugar com maior concentração de grávidas por metro quadrado - e elas têm prioridade!) e neste momento ainda tenho meio roupeiro para montar, uma cama (que na verdade são duas - o beliche de guerra!) e outro meio móvel de arrumação para os brinquedos (cheio de caixinhas, uma graça!), já me enganei duzentas vezes, que isto é uma espécie de legos para gente crescida, excepto que estas peças são pesadíssimas e quando nos enganamos cortamos o dedo na madeira, e depois pomos mal o prego que lasca a pintura do móvel, tentamos colar com super cola três para não se notar a nossa azelhice, mas enganamo-nos a calcular a dose de cola necessária e colamos também os dedos, e voltamos a acreditar no mito de infância que se calhar se pusermos super cola três nos dedos a coisa fica de tal modo feia que vamos te que amputar os dedos. Meus ricos dedos!

Juro, eu é que me sei divertir nas férias!

Passar bem #1 'O Pintassilgo' de Donna Tartt, Presença

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O que é um blogue sem um passatempo de tempos a tempos? Para celebrar o lançamento do 'Aurore' a minha equipa de comunicação (eu!) decidiu lançar um passatempo. Iupi!! 

Em sorteio está o livro 'O Pintassilgo' de Donna Tartt (Presença).
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Sinopse 
Theo Decker, um adolescente de 13 anos, vive em Nova Iorque com a mãe com quem partilha uma relação muito próxima e que é a figura parental única, após a separação dos pais pouco antes do trágico acontecimento que dá início a este romance. Theo sobrevive inexplicavelmente ao acidente em que a mãe morre, no dia em que visitavam o Metropolitan Museum. Abandonado pelo pai, Theo é levado para casa de um amigo rico. Mas Theo tem dificuldade em se adaptar à sua nova vida em Park Avenue, e sente a falta da mãe como uma dor intolerável. É neste contexto que uma pequena e misteriosa pintura que ela lhe tinha revelado no dia em que morreu se vai impondo a Theo como uma obsessão. E será essa pintura que finalmente, já adulo, o conduzirá a entrar no mundo do crime.

Francamente, este é um dos últimos livros mais marcantes que li. (Em boa verdade, e por mero acaso, eu li a versão em inglês - é que por mero acaso era a versão mais barata. Mas isto não é hora de uma pessoa se pôr com estas coisas. E em sorteio está, claro, a edição portuguesa!) O Theo é uma personagem incrível, a história é imprevisível, dramática (mas não piegas, atenção! Que para isso já temos o Nicholas Sparks) e imensamente cativante. Diz que ganhou um Pulitzer de melhor ficção (se tivesse sido eu a escolher, teria ganho dois ou três!) e há rumores que vai ser adaptado para o cinema brevemente.

And as much as I'd like to believe there's a truth beyond illusion, I've come to believe that there's no truth beyond illusion. Because, between 'reality' on the one hand, and the point where the mind strikes reality, there's a middle zone, a rainbow edge where all beauty comes into being, where two very different surfaces mingle and blur to provide what life does not: and this is the space wberell art exists, and all magic.

Passatempo
Ora, menos conversa, vamos lá à parte que importa, não é verdade? Para poder ganhar o livro 'O Pintassilgo', é necessário:

1. Fazer Like na página do facebook do blogue. Aqui. 
2. Partilhar este post no facebook. (Atenção que a partilha tem que ser pública!)
3. Preencher o formulário abaixo com o nome e e-mail.

O passatempo termina na próxima quarta-feira, dia 20 de Setembro, às vinte e três. O vencedor será seleccionado via random.org.

E é tudo... Boa sorte ; )

'All the light we cannot see' de Anthony Doerr, Fourth Estate

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sinopse

'Open your eyes and see what you can with them before they close forever.'

For Marie-Laure, blind since the age of six, the world is full of mazes. The miniature of a Paris neighbourhood, made by her father to teach her the way home. The microscopic layers within the invaluable diamond that her father guards in the Museum of National History. The walled city by the sea, where father and daughter take refuge when the Nazis invade Paris. And a future which draws her closer to Werner, a German orphan, destined to labour in the mines until a broken radio fills his life with possibility and brings him to the notice of the Hitler Youth.

In this magnificient, deeply moving novel, the stories of Marie-Laure and Werner illuminate the ways, against all odds, people try to be good to one another.

La Revue

Este livro foi daqueles que peguei na Fnac, desfolhei, li um trecho e trouxe comigo. Tive alguns impasses ao ler este livro, um Pullitzer!, a história não me convenceu. A escrita é suave, terna, detalhada e envolvente, as personagens são amáveis e elaboradas, e por isso esta é uma leitura magnética e absorvente. Mas a história, passada durante a ocupação Nazi em França, é demasiado romântica ou fantástica, só tem lugar no enredo de um livro, não convence. Talvez seja por já ter lido demasiados romances históricos desta época - eu tive esta fase!, mas parece-me que falta uma certa complexidade moral: a bravura e benevolência dos perseguidos, a crueldade gratuita e desmedida dos perseguidores são lugares comuns, que não deixam espaço à confusão das decisões em zonas cinzentas. Os protagonistas são duas crianças que crescem dos dois lados opostos da guerra. A Marie-Laure, a menina cega desde quase sempre, é outorgada, enquanto cresce durante a guerra, a conservadora involuntária de um objecto mítico, um diamante que não o é, que lhe caiu nas mãos vindo do esconderijo mais secreto do Museu de História Natural de Paris. Ela representa a resistência francesa aqui, apesar do jeito pouco comprometido ou, até, infantil. O Werner Pfenning é o orfão ariano, aficionado pela matemática e pela física, é ingenuamente levado a acreditar que leva para algum lugar decente a vida que conduzem por ele, tendencialmente heróico, nem abraça ou adere ao nazismo, nem o condena, é um jovem soldado nazi que vive num limiar de crítica e resignação. O desfecho da história é rápido, simples e óbvio.

Apesar de não me identificar com certos traços do romance, sou incapaz de desdenhar de uma série de geniais artimanhas deste livro, cheio de analepses e prolepses, como um dedo a girar os ponteiros do relógio para a frente e para trás. A história corre a dois tempos: a situação em que os protagonistas se encontram em Agosto de 1944, o Werner confinado durante dias e dias nos escombros de uma derrocada provocada por um bombardeamento aliado. A Marie-Laure escondida sozinha no sótão da casa, perseguida por um nazi moribundo seduzido pelo mito da gema preciosa. E o desvio para o passado por tudo o que conduziu para aí desde 1934. Dos dois tempos bifurcam duas histórias, as histórias de cada um dos protagonistas, que vão correndo em paralelo até se cruzarem, já condenados, em Saint Malo.

Os capítulos são curtos, umas vezes duas, outras vezes três páginas, um ou outro um pouco mais, mas nunca muito extensos, o que é muito cativante pela mudança de perspectiva constante. Uma centena de textos que conexos são uma história. De um ponto de vista prático isto é espectacular, podemos sempre ler só mais um capitulo, apesar de que tanto on and off  peça, a cada interrupção, prudência para não perder o fio à meada, muito diferente de quando lemos capítulos de cinquenta páginas num raciocínio constante e sucessivo.

Para mim All the light we cannot see vence pelo domínio da narrativa pelo autor.

A truck passes in the street. The sea folds onto the Plage du Môle fifty yards away. She thinks: They just say words, and what are words but sounds these men shape out of breath, weightless vapors they send into the air of the kitchen to dissipate and die.
(...)
The facade of a grand building rises gracefully, pilastered and crenelated. Stately wings soar on either side, somehow both heavy and light. It strikes Werner just then as wondrously futile to build splendind buildings, to make music, to sing songs, to print huge books of colorful birds in the face of the seismic, engulfing indifference of the world - what pretensions humans have! Why bother to make music when the silence and wind are so much larger? Why light lamps when the darkness will inevitably snuff them?
(...)
So really, children, mathematically, all of light is invisible.

Prémio Pulitzer Ficção 2015

Crash into me

Assim que o carro finalmente parou de deslizar para muito além do meu domínio, eu ainda estremecia com o estrondo do impacto, saí do carro disparada. Nem para ver o que é que eu despedacei, nem para me desembaraçar do que quer que houvesse ali para resolver, saí disparada só para me largar, para fugir do tempo e esquivar-me do momento, de há instantes!, em que eu não vi um carro atravessar-se diante de mim. Abandonar-me da hora maldita em que decidi virar já à direita, escapar do momento em que saí de casa com as chaves na mão e a carteira na outra. Fugir de tudo o que conduziu ao estrondo. E, afinal, foi só um acaso, somente um estorvo.

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos


Descrença

Diz-se que vivemos na grande era da informação. Knowledge is power. Acontece aqui, sabemos ali, não há segredos. I object!!!

A semana passada, eu estava a almoçar no Colombo, como de resto é hábito, com duas colegas 'O João recebeu um mensagem de aviso de um atentado terrorista em Lisboa, foi um amigo que trabalha num hotel em Alfana e que foi avisado pelo CIS!', 'Não, não foi o João, foi a Maria João que recebeu uma mensagem de uma amiga, cuja mãe trabalha na embaixada, a avisar que está para acontecer um atentado em Lisboa.' 'Na embaixada trabalha o meu pai e a mim não me avisou de nada!'

E foi assim que o boato me chegou. Tudo à volta num burburinho, que já somos gente, em que é que a Noruega é mais que nós? Não vieram já os extremistas anunciar que este nosso rectângulo à beira mar já foi deles, que Al-Andaluz volta a ser deles mais dia menos dia? Ora, desde que não sejamos afectados, nem nós, nem os nossos pais, os nossos empregos, os nossos filhos, as nossas casas e os nossos amigos. Claro, ninguém pode resistir a uma tragédia. Um acidente na auto-estrada que afinal é só chapa. Intrigante, isto. Bring it on!!

A informação chega-nos plastificada, maltratada, corrompida. São todos donos da verdade, mas nenhum com registo de propriedade.

No ano passado, a dada altura, quis saber a fundo o que se passava na Síria, todos os dias, a toda a hora. Porque é que aqui ao lado chovem bombas e não se ouvem as explosões? Que raio, afinal, se está a passar? Então comecei a investigar, a cavar, site que leva a site, Google tradutor, jornalistas independentes (ou não?!), declarações oficiais, li de tudo. Fiquei muito mais baralhada do que quando comecei a procurar respostas. As respostas que encontrei eram totalmente antígonas. Em primeiro lugar os órgão de comunicação social, a este respeito, apenas ressoam os internacionais de destaque, depois, estes últimos, contam tudo à metade, atestado de verdade enraizado pela superfície. Uma espécie de jogo do telefone estragado em versão global. Dos dois lados da barricada acusações plausíveis, dos dois lados provas irrefutáveis (um inimigo comum, apenas!). Quem é que está a mentir? É que alguém tem que estar a mentir. 'Eles não tem fones in loco, nós estamos no terreno.', 'Eles só querem poder, nós queremos queremos dignidade.', 'Nós queremos paz.', 'Nós é que queremos paz.'. É a palavra que se desvirtua e se desintegra. Auch!

Fiquei desiludida, a partir desse momento fiquei descrente. Nos últimos tempos tenho visto mais e mais aproveitamento mediático, mais e mais sensação à frente da razão.

Ninguém tem tempo para ler notícias e as notícias têm que caber em 140 caracteres, que sejam 140 caracteres absolutamente marcantes.

'EUA vão cortar relações com todos os países que travam negócios com a Coreia do Norte' li ontem. Mas afinal quais é que são os países que ainda travam negócios com a Coreia do Norte? O único país exportador, residual, para a Coreia do Norte é a China, e nem a China está interessada em alimentar uma guerra na vizinhança, nem os EUA em parar a indústria das suas marcas na China. Mas parece final, decidido flagrante, 140 caracteres. 

Talvez, quem sabe, o problema é que ninguém quer realmente saber que medidas diplomáticas estão em cima da mesa (é um jogo, confessamos, aborrecido), e mesmo querendo não há como. Alguém de uma vez por todas que atire com um míssil à cabeça do Kim Jong Un. Drama, acção, sangue, guerra, longe acima de tudo. A resolução tão simples, ninguém faz nada e eu que que vou procurar notícias no telemóvel de meia em meia hora. A guerra é fria porque não aquece com emoções.

É um cliché, mas nos clichés reside sempre um pouco de verdade, a história é (re)escrita pelos vencedores e só aí é que é conhecida.

(A este propósito, e em nota de rodapé, Os Truques da Imprensa Portuguesa, salvo o tom meio conspirador, vem demonstrando eficazmente como uma verdade às vezes é só meia verdade.)

Santa Eulália

terça-feira, 5 de setembro de 2017

É este o tipo de bloguer que a Aurore apresenta, comeco um blogue e vou de férias. E não são umas férias quaisquer, são umas férias minimalistas. Rumo ao sul, sempre ao sul, e ainda estava na ponte 25 de Abril, já o meu filho rugia, do banco de trás 'Estamos quase a chegar?'.

Para esta casa não trouxemos brinquedos, além dos estritamente necessários (baldes para encher com o Oceano e  pás para cavar até ao centro da Terra, o equipamento mais básico para a praia), aqui não há televisão e muito menos internet, pelo que vivemos numa semana santa, armados do bendito descanso e um pouco de criatividade (debaixo da mesa  temos um bunker e os chinelos são carrinhos).

Esta viagem, já tão pouco digna desse nome, é-me tão familiar, é um herança para os meus filhos, recordo-me de quando o Algarve não estava a duas horas e meia de caminho. Não como se tivesse sido ontem, mas como se tivesse sido noutra vida, eu e a minha irmã vestíamos os fatos de treino (crescer nos anos noventa!) e numa luta travada entre o sono e a excitação de uma aventura, dormitávamos até que a meio da noite nos viessem despertar. Era de facto uma aventura, percorrer as estradas nacionais pouco iluminadas no banco traseiro do carro de família, o céu despido todo estrelado, a lua brilhante, a minha irmã quebrava e adormecia ao meu lado, eu não pregava olho, lia as placas com as indicações das localidades que atravessávamos, pedia ao meu pai o mapa e estendia-o sobre as minhas pernas para encontrar o nome da terriola que tinha lido na placa, e assim saber exactamente onde estava. 'Estamos dentro do carro!', a resposta pronta do pai não me chegava. O sol nascia nas planícies alentejanas, breathtaking, a imensidão e uma menina. Um pouco mais tarde, ali ao fundo, no horizonte, o mar. Chegámos.

 É este o encanto infantil pelas coisas simples, só diferentes da lufa-lufa (luta-luta) de todos os dias, vestimos pijama para dormir, acordamos para a escola, mais um dia de e-mails por ler, por acabar de escrever, telefonemas e reuniões com o chefe. Não haja equívocos, a vida que eu adoro, mas que não tem nada de simples. Ou de infantil.

Não tenho aqui (ainda estamos no sul) nenhumas raízes, não da minha árvore genealógica, as memórias abundam. Ainda assim, porque a vida, já se viu, num torpedo anti-ciclónico, fez a minha avó, a minha muito, muito querida avó, vir aqui aterrar. Aqui, aqui mesmo, no lugar que já não é longe pela distância mas tão só pelo tempo que não temos, enão num parênteses das férias dos meus filhos viemos esconder-nos na cozinha da minha querida, muito querida, avó para que quando abrisse a porta se inundasse de lágrimas. Tão bom! A avó eterna, com as suas rugas intemporais de quem nasceu antes da grande guerra. As mesmas rugas de quando eu era só uma menina. 'Beijem-na filhos, abracem-na!'  Porque são assim as avós? Tão ternas! Tão doces! Tão resistentemente felizes! Tão amorosamente dedicadas? É também responsabilidade dos meus filhos, res-pon-sa-bi-li-da-de, uma dívida, sorrir para ela. Porque a têm, é mesmo nossa.
Resumindo e concluindo, pregámos um valente susto a uma velhinha com oitenta e alguns anos e a velhinha está rija que nem um pêro. Um coracão forte como o da avó queria eu.

(Li certa vez, não consigo precisar onde, qualquer coisa como 'os sacanas também se tornam velhos', ou seria 'os velhos também já foram sacanas'. A velhice, não há como não, desperta em nós uma ternura, o reconhecimento do caminho da humanidade, até que a fealdade se torne difícil de suportar. Se não é próxima, não é de ninguém. Eu e o meu filho pequenino estávamos sentados naquele ponto em que as ondas fracas nos vêm lamber os pés. Ao fundo, três velhos. Velhos são eles, é isso que são. Em passo lento chegaram os três, só os três, ao areal. Um trazia um andarilho, outro umas canadianas, e o terceiro ainda sem nenhum apoio. Vestiam t-shirts desbotadas e calcas de ganga dobradas pelos tornozelos. A custo, lenta, mas mesmo muito lentamente, chegaram à beira-mar, junto a nós, e ficaram os três, só os três, mudos, num riso contagiante e infantil a chapinhar os pés enormes. Incapazes de jurar manter o equilíbrio se ousassem dar um passo em frente, foram os três, numa silhueta imperfeita de volta para de onde não os vi partir.)