'I am so clever that sometimes I don't understand a single word of what I am saying.' Oscar Wilde

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Back to school

domingo, 24 de setembro de 2017

Porque é que os meus filhos andam num colégio? Porque é que os meus filhos andam neste colégio e não noutro? Antes de mais porque eu escolho, porque eu tenho liberdade para escolher.

O debate sobre a educação surge muitas vezes poluído por uma lusitana corrente de bota-a-baixo, cheia de críticas impulsivas e coléricas, numa grande caldeirada de sindicalismos, política, politiquice e sabe-Deus-o-quê. A educação tem sido um tema sempre presente na minha vida, a minha avó foi professora no Estado Novo e a minha mãe foi professora no tempo que se seguiu, assisti enquanto crescia à contenda entre as duas gerações, a minha avó que foi professora da minha mãe e dava reguadas aos alunos que não sabiam a tabuada, a minha mãe que se esforçava por deixar a professora na escola e ser apenas nossa mãe, nunca nos tratou como alunos e durante a carreira lutou pela abolição dos trabalhos de casa, tem toda uma teoria em como os trabalhos de casa têm um impacto negativo na relação entre a família e a escola (da minha parte, confesso, embora conheça obviamente a teoria, ainda não defini exactamente a minha posição sobre o assunto: reconheço prós, contras e posições moderadas. Conto para o ano, quando o meu filho mais velho chegar ao primeiro ano, ter bem consolidado o meu entender sobre os trabalhos de casa).  Eu não segui uma carreira na área da educação (tenho zero vocação e zero paciência!) mas sou agora mãe e a discussão sobre a educação e o desenvolvimento escolar interessa-me.

Quando os bebés nascem é tudo desconhecido, não entendem o que se passa no meio que os rodeia e por isso o cérebro das crianças está preparado, durante a infância, para absorver o máximo, tudo é aprendizagem, todos os momentos são de educação. Quando os acordamos, quando os levamos à escola, quando estão no acolhimento, na sala, no almoço, quando vão às actividades extra-curriculares, quando os vamos buscar, quando lhes damos o jantar e quando tratamos deles para os deitar, as crianças, os meus filhos, estão a aprender, por isso escolher onde passam a grande parte do dia, a parte do dia em que têm o máximo da energia e da atenção, deve ser uma escolha cuidada e dedicada. Se podemos escolher o que queremos vestir, comer, consumir, se podemos escolher entre trinta marcas de iogurtes, porque haveremos de empurrar os miúdos para a escola, que como manda a regra, a morada da nossa residência obriga? Independentemente de os projectos educativos serem ou não do nosso agrado, independentemente de nos revermos ou não com o que é feito naquela escola! Dos anos em que acompanhei a minha mãe por diferentes escolas, das escolas por onde passei e também pela experiência que tenho enquanto mãe, posso garantir que as escolas não são todas iguais, pelo contrário, cada uma tem um ambiente e uma cultura distinta e única, do mesmo exacto modo reconhecemos que não há duas pessoas iguais mas só escolhemos uma para casar (de cada vez, pelo menos!), assim devemos o mesmo amor ao escolher a quem entregamos a tarefa de cooperar na educação dos nossos filhos.

Depois do tempo de creche do meu filho mais velho (ambos os meus filhos tiveram um excelente cuidado que foi de encontro ao que precisavam nessa fase) e antes de estar no colégio actual, desenhámos para ele um trajecto diferente, escolhemos para ele, e seria para o irmão também assim que chegasse aos 3 anos, uma escola em particular onde o meu marido fez a maioria da escolaridade. O meu marido trazia tantas boas recordações e aprendizagens dessa escola que juntos idealizamos e acreditámos que seria adequado prosseguir ali o ensino dos nossos filhos. Foi uma desilusão para ele que viu que afinal já nada é como era, para mim que caí ali e, principalmente, para o meu filho.

Nesta escola de que falo, as crianças. no pré-escolar são como que uma carga a gerir, tudo é mais uma questão de logística do que de educação, interessa que as crianças façam alguns trabalhos, desenhos e colagens, que estejam alimentadas e durmam a sesta. No acolhimento, manhã cedo, no Verão como no Inverno, nos dias de sol como nos dias de chuva, o meu filho de 3 anos, que entrou para ali ainda com 2, só não ficava no recreio, debaixo de um telheiro num banco sentado à espera para ir ter com a educadora porque eu me opunha. No fim do dia ficava fechado numa sala de aula do primeiro ciclo com crianças até aos dez anos sem fazer rigorosamente nada, só à minha espera. Quando perguntei pelo projecto educativo para a sala ninguém me soube responder. Quando perguntei quais os objectos do trimestre ninguém me soube responder. Quando perguntei como estava o desenvolvimento do meu filho disseram-me que fazia muitas birras mas estava a melhorar. Quando o meu filho me deu o presente do dia da mãe entregou-mo dizendo que a educadora o havia feito para mim, 'Mas ajudou a professora a fazer, não ajudou?', 'Não, foi a Mila que fez'. 

Foi um ano horrível e a culpa foi toda nossa, que não fizemos suficientemente bem o nosso trabalho e deixamos a criança ali. Felizmente os miúdos têm uma velocidade que não é a nossa e recuperam num instante.  Assim que parei de me iludir e compreendi todos os sinais de uma vez por todas de que aquela não era a escola que eu queria para o meu filho, procurei alternativas, era urgente mas ainda assim tive que esperar até o término do ano lectivo, não podia fazê-lo passar por adaptações sucessivas até encontrar a escola que nos fizesse sentido. No ano seguinte, que foi o ano passado, o meu filho entrou para este colégio onde está agora, e este ano o irmão juntou-se-lhe. Na minha liberdade escolhi este colégio porque sinto que o potencial dos meus filhos, esta magnífica capacidade de absorção na infância, é aproveitada e estimulada. O colégio preocupa-se com os referenciais de conhecimento e também com a formação enquanto pessoa, são os adultos de daqui a vinte anos que estão em formação, sinto a paixão dos profissionais e a responsabilidade do colégio. As crianças são uma tela em branco em constante revelação e é preciso estar atento a cada uma para ver o que revela, quais as aptidões e dificuldades, cada criança é um projecto individual de amor, o professor conduz e lidera o caminho de mãos dadas com os pais porque todos os momentos são educação. É necessário um ensino rigoroso, bem pensado e bem implementado e é por isso que os meus filhos de 3 e 5 anos (quase, diga-se, por ora 2 e 4!) têm aulas de inglês diariamente (todos os dias!), têm matemática  e têm programação. Na sala dos cinco anos o meu filho está a trabalhar a consciência fonológica e a preparar-se arduamente para a entrada no primeiro ciclo já no próximo ano. No acolhimento eles ficam numa sala do pré-escolar com uma educadora a brincar antes de começar o trabalho de sala e no prolongamento fazem jogos e ouvem histórias. A nós pais são constantemente dadas dicas para continuar o trabalho da escola: dizemos 'Well done!' em casa e substituímos algumas expressões corriqueiras do dia-a-dia pelas mesma expressões em inglês por sugestão da professora de inglês, contamos os degraus para ajudar com a matemática e perguntamos aos nosso filhos em viagem no carro quais os nomes dos planetas. Tudo tem uma razão e a razão está patente. O colégio transpira inovação, esforço, criatividade e, pasme-se!, tradição. Eles crescem e aprendem cheios de alegria e eu com eles.


1 comentário :

  1. Concordo, em grande parte, com a tua mãe no que diz aos trabalhos de casa. As crianças passam tanto tempo na escola, se chegam a casa e ainda têm tpc's para fazer isso nem lhes dá liberdade para brincarem e serem crianças, nem lhes permite ter tempo com a família. E se há trabalhos que até podem ser úteis e estimulantes, a maior parte não passa do «mais do menos», e isso em nada beneficia a criança.
    Enquanto profissionais de educação, temos que querer o melhor para o nosso grupo e fazer por isso. Tê-lo na sala e não proporcionar momentos educativos não é viável. Da mesma maneira, é natural que os pais queiram a melhor educação possível e se não a conseguem num lado, têm, inevitavelmente, que a procurar noutro.

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