'I am so clever that sometimes I don't understand a single word of what I am saying.' Oscar Wilde

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O acordão ou Isto não é Hollywood

domingo, 29 de outubro de 2017

Eu bem tento resistir às polémicas, mas não sou capaz e agora que a história já se vai esmorecendo  é tempo de deixar a minha posta de pescada sobre o assunto.

Foi assinado um acórdão do Tribunal da Relação do Porto atenuando a pena de um homem que agrediu violentamente a mulher com uma moca de pregos porque ela o traiu.

Eu não sou lá grande feminista, claro que não desprezo a causa, mas aqui parece-me que se nos afastar-mos do caso e pensarmos no abstracto a vítima ser um homem ou uma mulher é absolutamente irrelevante porque bater em alguém com uma moca com pregos é sempre censurável. O radicalismo da causa feminina, como de outra qualquer, enerva-me quando se torna demagógico. Este caso é horrível porque se trata de uma pessoa. Desta vez não me afundei com profundidade nos meandros do caso (não sou o correio da manhã!), afigura-se tão claro e óbvio que o Estado deve proteger as vítimas e não vir diminuí-las, humilhá-las ou rebaixá-las. Houve um erro crasso e em boa hora se mediatizou um tiro ao lado tão flagrante, expondo o que há de errado no sistema sacro-judicial. As decisões devem ser fruto de uma análise racional e de Direito, em que a factos correspondem consequências, estaríamos todos aptos para nos julgarmos uns aos outros se o processo de repor a justiça assentasse somente nas nossas convicções pessoais. Colocarmos-íamos em causa a segurança da sociedade e riscarmos-íamos milénios de evolução sobre a justiça. Não se espera isso de um tribunal. 

Não vi escrever uma vírgula sobre o tema do adultério que está no centro das afirmações e justificações da decisão. (Parece que alguém perguntou 'O adultério legitima a violência?', não a violência não está justificada.) Mas porque é que o adultério faz tanta confusão ao juiz? Em tempos que já lá vão os casamentos eram alianças económicas ou militares, uniam-se propriedades, reinos, territórios, exércitos e famílias. Mas não hoje, hoje casamos por amor, porque depositamos numa outra pessoa a expectativa de nos vermos correspondidos, queridos, amados e protegidos em troca do mesmo. Entregamos uma parte de nós para construir uma fortaleza de afeição. O que acontece quando a aliança se quebra? O que acontece quando alguém se descobre traído? Não se desfaz um reino, desfaz-se a parte de nós que assenta na segurança desta afeição e por isso os efeitos são destrutivos - li certa vez que o abalo chega a ser comparável a uma violação, investe contra a confiança e o amor próprio - essencial para se sobreviver na selva. A traição é um tornado que destrói o terreno por onde passa e deixa uma dor anónima e solitária. É uma irresponsabilidade de endorfinas que traz consequências. Pode até parecer mas não vale tudo, a ideia é que cada um faz o que quer, quando estiver mal pega nas trouxas e segue a vida, como se a nossa razão fosse assim tão básica. Felizmente a mentalidade generalizada é que espancar a mulher ou o marido a quem jurámos respeito é ultra condenável, que usar crianças, bater nelas ou expô-las a cenas de violência é absolutamente monstruoso, não tiro uma grama ao peso que tem este tipo de comportamento. Não sejamos ingénuos quanto ao peso do adultério. O mínimo que é devido à família é respeito e responsabilidade. O egocentrismo é natural (em última análise ninguém sofre as nossas dores) mas o egoísmo é combatível, falta sensibilidade e bom senso (Jane Austen).


Call me Irresponsible - Bobby Darin (não é a versão original, mas é a minha favorita)

Call me irresponsible
Call me unreliable
Throw in undependable, too

Do my foolish alibis bore you?
Well, I'm not too clever, I
I just adore you

So, call me unpredictable
Tell me I'm impractical
Rainbows, I'm inclined to pursue

Call me irresponsible
Yes, I'm unreliable
But it's undeniably true
That I'm irresponsibly mad for you

Do my foolish alibis bore you?
Girl, I'm not too clever, I
I just adore you

Call me unpredictable
Tell me that I'm so impractical
Rainbows, I'm inclined to pursue

Go ahead, call me irresponsible
Yes, I'm unreliable
But it's undeniably true
I'm irresponsibly mad for you

You know it's true
Oh, baby, it's true

Dormir faz crescer?

Always borrow money from a pessimist. He won't expect it back.


Oscar Wilde

Estou sempre pronta para receber uma má notícia. Não é que seja pessimista - tudo é mau! - mas no sentido em que tudo é privilégio e pode acabar num ápice. Não estou à espera de boas notícias, mas às vezes elas chegam, num cocktail de mérito com sorte, voilá!

TGIF

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

I sat in the same bar for 7 years, from 5 a.m (the day bartender let me in 2 hours early) to 2 a.m. Sometimes I didn't even remember going back to my room. It were as if I were sitting on the barstool forever. I had no money but the drinks kept arriving. To them I wasn't the bar clown but the bar fool. But at times a fool will find a greater fool to admire him. And it was a crowded place.

Actually, I had a viewpoint: I was waiting for something extraordinary to happen. But as the years wasted on nothing ever did unless I caused it: broken bar mirrors, a fight with a 7 foot giant, a dalliance with a lesbian, many things like the ability to call a spade a spade and to settle arguments that I did not begin and etc. and etc. and etc

One day I just upped and left the place. Like that. And I began to drink alone and I found the company quite all right. Then, as if the gods were bored with my peace at heart, knocks began upon my door: ladies. The gods had sent the ladies to the fool. And the ladies arrived one at a time and when it ended with one,the gods immediately - without allowing me any respite - sent another. And each began as a flash of miracle - even the bed - and the good ended up bad.

Charles Bukowski

Prémio Saramago 2017

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Estamos no auge da season dos prémios literários, e o que eu acho extraordinário é como cada um distingue a literatura de uma perspectiva distinta. Cada prémio tem uma aura muito própria que eleva a voz do talento sobre o ruído das publicações vazias desenfreadas.

O Prémio Saramago foi criado pela Fundação Círculo de Leitores depois do Nobel do Saramago em 1998 com o intuito de estimular e incentivar a produção literária em português jovem, fresca e insurgente, premiando e lançando escritores até aos 35 anos. José Luís Peixoto (adoro!), Valter Hugo Mãe e Bruno Vieira Amaral (extraordinário!) venceram o prémio Saramago e são já referências da literatura lusófona.

Hoje ao meio dia, foi o Julián Fuks, brasileiro filho de argentinos exilados políticos, que venceu com o livro 'A Resistência' (editado pela Companhia dos Livros) onde escreve sobre o processo de descoberta e aceitação da identidade.

"Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado", anuncia, logo no início, o narrador deste romance. O leitor descobre-se à partida imerso numa memória pessoal que se revela também social e política. Do drama de um país, a Argentina a partir do golpe de 1976, desenvolve-se a história de uma família, num retrato denso e emocionante.

Adotado por um casal de intelectuais que logo iriam procurar exílio no Brasil, o rapaz cresce, ganha irmãos, e as relações familiares tornam-se complexas. Cabe então ao irmão mais novo o exame desse passado e, mais importante, a reescrita do próprio enredo familiar.

Um livro em que emoção e inteligência andam de mãos dadas, tocando o coração e a cabeça dos leitores.


Eu também fervo em pouca água

domingo, 22 de outubro de 2017

When you change the way you look at things, the things you look at change.
Max Planck

Ontem fui com o meu filho mais crescido ao centro clínico para fazer o penso na mão depois da catástrofe que se deu esta semana (aqui). Fomos só os dois e o dia corria-nos muito bem, este meu filho é incrivelmente meigo e terno e estar com ele é, de facto, um privilégio, mas mal chegámos desviou para a papelaria que ali há, desatou a correr e deixou-me para trás, entrou na papelaria, escolheu uma revista que trazia como brinde uma pistola de brincar e pediu-me que a comprasse. Eu zanguei-me: não, ele não pode fugir de mim assim, é perigoso e além disso, só esta semana já lhe comprei dois beyblades e uns legos. 'Não, filho! Podemos pensar nisso para outra altura, mas agora a mãe não vai comprar nada!'. Despertei a fera, fez-se o clique, enfureceu-se e, hirto, desatou a chorar perdidamente. Passada uma boa meia hora, entrámos na sala de espera e ele ainda gritava desatinado enquanto se arrastava. Espera-se que a mãe faça qualquer coisa, que controle a criança! E que faz uma mãe nesta situação. Hipótese A: dá-lhe um estalo e mostra quem manda. Hipótese B: pára com aquilo a todo o custo, se é preciso comprar a porcaria da revista com a pistola, que seja! Hipótese C: deixa-o gritar, que isso passa. Hipótese D: tenta chegar à criança pelo diálogo. Por trás de uma criança aos berros num lugar público, ou em casa, há uma mãe que também gosta de paz e sossego e que não se sente particularmente confortável em trazer consigo um vendaval por onde passa. As hipóteses A, B e C são, sem sombra para dúvidas, mui tentadoras. Mas como já disse anteriormente, eu pelo menos tento que todos os momentos com os meus filhos sejam momentos de educação porque em todas as situações eles, espertalhões, estão a aprender com as minhas atitudes.

É preciso então captar a atitude dele. O que é? De onde vem e para onde vai? Tem um nome, é frustração! Preciso de ensinar os meus filhos a lidar com a frustração, mas não lhes posso ensinar uma coisa que desconheço. Que disparate seria pôr-me a ensinar a tocar piano quando não faço a mínima ideia do que é um lá menor. A frustração é o que sentimos quando fixamos um objectivo e nos deparamos, no caminho, com um obstáculo. De início é algo bom, é o que nos motiva a remover o obstáculo, mas parece que às vezes o empecilho é demasiado pesado e não o conseguimos arredar, um nó que não ata nem desata, um transtorno. A frustração enrola-se como uma bola de neve, desenvolve-se e passa a destruição - raiva! Expoente disto é como lidamos com os nossos erros, ora, lidar com os erros dos outros é facílimo, é esticar o dedo e já está, mas os meus erros, livra! Às vezes só temos uma oportunidade e damos cabo dela, abrimos os olhos mas já é tarde, já está o caldo entornado, a bola passou para o lado de lá e agora perdoar também é opcional. Depois do mal feito só há um caminho, sobreviver a ele através da responsabilidade individual, o sublime poder da escolha errada. Todas as nossas acções têm um custo, a consequência, é portanto fundamental compreender o que nos rodeia para podermos equacionar devidamente o impacto das nossas escolhas, agir como se desconhecêssemos o nosso redor é despir de significado as nossas acções. A questão permanece, como dobrar o cabo? Precisamente navegando pelas consequências, o fruto de errar é aprender. Só reconhecendo a insipiência se pode instruir. Aprender é falhar, falhar, falhar e um dia ganhar. Assim, se tudo tem um significado, a felicidade é ela própria uma consequência e não uma causa que diz mais do passado do que do presente. Lidar com a frustração é encontrar um sentido remoto em tudo para não desesperar, é encontrar virtude na desgraça... É recolher na simplicidade e encontrar prazer no encontro tranquilo com o que sou.

Na sala de espera, baixei-me e agarrei o meu filho, dei-lhe um abraço e um beijo antes de começar a conversar com ele, se não me puser no lugar dele não tenho nada para lhe dizer. Eu sei, querido filho, que às vezes não temos o que queremos, queremos controlar tudo e não controlamos nada, ficamos zangados! É isso, não é? Fugir da mãe é um grande disparate, não é? A palpar terreno por intermédio de uma calma que não sei de onde me chega, lá o fui conquistando... Demorei realmente bastante tempo, não foi fácil, mas ele acabou aninhado nos meus braços, o lugar que tenho para ele. Triste, mas confortado. Agora, a sério, o que é que é esperado de uma mãe?

Prémio Leya 2017

Sexta-feira foi anunciado o vencedor 2017 do Prémio Leya, João Pinto Coelho com o livro 'Os Loucos da Rua Mazur'.


O Prémio Leya foi criado em 2008 pelo grupo editorial Leya com o intuito de incentivar a produção literária lusófona, de modo que todos os anos tem vindo a premiar um romance inédito de ficção em português de aquém e além fronteiras. Se o incentivo é a produção literária não é  produção desenfreada e sem mérito, já por duas vezes em menos de dez anos de história do concurso, em 2010 e 2016, não houve vencedor por entendimento do júri de que as obras premiadas, o que apesar de ser obviamente infeliz me garante que ao contrário da cultura do vale tudo destes tempos a qualidade ainda tem o seu peso.

Este ano o prémio foi para o autor João Pinto Coelho que já em 2014 havia sido finalista do prémio com 'Perguntem a Sarah Gross' que acabou por ser publicado pela Dom Quixote (do grupo Leya). Este primeiro romance centra-se na história de Auschwitz, um lugar com léxico próprio num livro que é uma questão conformadamente pousada 'A certa altura desisti de procurar respostas. A dúvida chega-me. Estou satisfeito por ter dúvidas.' (Must read, aqui, o artigo do Público 'Auschwitz nasceu de um lugar feliz').

Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. 

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.

Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História.

Desta vez, no entanto, a maldade que descreve é cometida pela 'comunidade sobre a própria comunidade', 'Os Loucos da Rua Mazur' passa-se na Polónia durante a segunda guerra mundial e compreende a convivência entre judeus e cristãos na época. O livro pega na improbabilidade da História para reflectir sobre a universalidade do mal em exposição à sua banalidade.

Lá para o Natal, digo, teremos o livro editado, mas por enquanto revisitamos os vencedores.

2015 - 'O coro dos defuntos' de António Tavares
Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. 

Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna - espécie de divã freudiano do lugar - é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. 

Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar…

2014 - 'O meu irmão' de Afonso Reis Cabral

Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão - um professor universitário divorciado e misantropo - surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados - e o maior de todos chama-se Luciana.
Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.

O Meu Irmão, vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso.

2013 - 'Uma outra voz' de Gabriela Ruivo Trindade

João José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.

Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.

2012 - 'Debaixo de algum céu' de Nuno Camareiro

Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças - vizinhos que se cruzam mas se desconhecem - andam à procura do que lhes falta: um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive. Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave, uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se fazer ouvir. 

A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens - como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho. Entre o fim de um ano e o começo de outro, tudo pode realmente acontecer - e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um homem. 

Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos. 

Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos habituou com o seu primeiro romance, Debaixo de Algum Céu retrata de forma límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um empreende pela redenção.

2011 - 'O teu rosto será o último' de João Ricardo Pedro

Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. 

Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. 

Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?

2009 - 'O olho de Hertzog' de João Paulo Borges Coelho

O que procura Hans Mahrenholz, um oficial alemão que se faz passar por empresário e jornalista inglês, nas ruas da Lourenço Marques de 1919, ainda no rescaldo da Grande Guerra? E por que não assume a sua verdadeira identidade? E por que procura desesperadamente um mulato com nome grego e uma longa cicatriz? E como o pode ajudar um dos mais famosos jornalistas dessa cidade, um mestiço assimilado e carismático? Hans Mahrenholz (ou Henry Miller) chega ao norte de Moçambique num zepelim e é largado de pára-quedas, sozinho, em plena selva, com a missão de se juntar ao contingente do general Lettow. Consegue-o. Mas todo o resto da campanha militar é assombrada pela estação das chuvas, a floresta virgem, a malária e os confrontos com os exércitos inglês e português. Quando chega a Lourenço Marques, Hans já não é o herói ingénuo e corajoso que se juntou a Lettow. É uma personagem misteriosa com uma missão misteriosa…


2008 - 'O rastro do Jaguar' de Murilo Carvalho

Estamos no virar do século XIX em Congonhas do Campo. Pereira, um antigo jornalista de origem portuguesa, revisita as suas memórias, que percorrem todo o conturbado período da segunda metade do século. Através do relato da sua viagem, Pereira, que deixara Paris com o seu grande amigo e companheiro Pierre, leva-nos a conhecer o Brasil em guerra com o vizinho Paraguai, no período mais decisivo da sua história. Uma guerra sangrenta que o Brasil trava ao lado da Argentina e do Uruguai e que, para Pereira e Pierre, será o momento decisivo das suas vidas. É também a guerra pelo espaço vital das populações índias que, humilhadas pela acomodação forçada às regras e vivências dos colonos, tentam recuperar a sua Terra Mítica onde o Mal não existe. É ainda a guerra travada por Pierre para se definir a si mesmo: índio, como o seu povo, ou europeu, tal como foi criado? Levado em criança por Auguste de Saint’ Hillaire do Brasil para França, descobre, já adulto, nas feições de dois índios presos, a chave para as suas raízes nunca explicadas. Raízes que vai encontrar nesse cruzamento do Rio da Prata onde brasileiros e paraguaios morrem aos milhares e os índios guarani lutam por uma terra onde possam de novo viver livres e em paz. Da França à Argentina, do Brasil ao Paraguai, do sertão nordestino aos planaltos do Sul do Brasil, Pereira relata-nos de uma forma empolgante e quase cinematográfica as grandes transformações que definiram a América do Sul. Pelo caminho, encontra o amor perfeito e Pierre a pátria a que, junto dos seus, pode chamar sua. 

Baseado em factos verídicos e personagens reais, O Rastro do Jaguar é um fresco dos intensos choques culturais e sociais que marcaram o século XIX e a relação dos europeus com as suas antigas colónias agora independentes.

The Man Booker Prize - WINNER 2017

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Da shortlist para o Man Booker Prize (aqui), o   prémio de literatura britânico com maior reconhecimento para uma obra de um autor vivo editada ou disponível em inglês, anunciada em Setembro de que fazem parte ‘4321’ do Paul Auster (estou mega curiosa com o modo como está história pode ter sido construída com coerência), ‘History of Wolves’ da Emily Fridlund, ‘Exit West’ do Mohsin Hamid, ‘Elmet’ da Fiona Mozley, ‘Lincoln in the Bardo’ do George Saunders e, finalmente, ‘Autumn’ do Ali Smith; foi anunciado esta noite na cerimónia no London Guilhall que o vencedor é ‘Lincoln in the Bardo’.


The form and style of this utterly original novel reveals a witty, intelligent, and deeply moving narrative. This tale of the haunting and haunted souls in the afterlife of Abraham Lincoln’s young son paradoxically creates a vivid and lively evocation of the characters that populate this other world. ‘Lincoln in the Bardo’ is both rooted in and plays with History, and explores the meaininh and experience of empathy.
Lola Young,
Presidente do Júri


Já existe edição em português pela Relógio d’Água, é correr para a Fnac e agarrrar. Da minha parte não sei por onde começar porque também fiquei mui empolgada com o ‘History of Wolves’ e o ‘Elmet’.

Love is my superpower

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O meu telefone tocou e no ecrã o nome da educadora do meu filho mais velho: parei tudo e atendi, como ditam as regras do meu coração de mãe. Na verdade, confesso, as educadoras dos meus filhos já me ligaram muitas vezes e normalmente as chamadas passam-se do seguinte modo: 'Olá! Antes de mais, não se preocupe que está tudo bem, é só para avisar disto e daquilo', ligam-me para me lembrar ou tratar de um e de outro assunto, ou, no máximo para me dizer que o meu filho está com muita tosse e que talvez devesse ir logo com ele ao médico, portanto, apesar de ter presente o senso de que se pode passar algo, não fico propriamente em pânico. Desta vez, porém, quando atendi disse-me 'Está tudo bem mas o Lourenço magoou-se na mão, se calhar podia ir ter connosco já ao hospital!' (Obviamente que não exactamente nestes termos, que eu morria logo ali, mas parecido.) É chegado o dia! Arrumei as minhas tralhas e pus-me a caminho. Que mais?

Magoou-se no recreio de tal modo que golpeou o dedo com profundidade. A ferida estava muito feia e as educadoras estavam apreensivas e alarmadas com o miúdo pálido.  O meu rico filho, rijo que nem um pêro, não chorou, na verdade nem reparou que se magoou até as professoras se aproximarem. A condição só se agravou quando entrámos para a sala de pequena cirurgia para suturar o dedo ferido, foi necessário imobilizá-lo, coitadinho, porque percebeu que lhe iam mexer na mão magoada e isso tinha ares de doer, não sendo parvo, preparou-se para dar à sola. Tivemos imensa sorte porque tanto as enfermeiras como o médico que o trataram eram muito meigos mas, ainda assim, foi necessário segurá-lo. Foi horrível! O pai a prender-lhe o tronco, um braço e as pernas, as enfermeiras seguravam o braço que precisava de tratamento e eu ali, impotente. O médico anestesiou-o localmente e dizia-me que a sutura não doía, se o meu filho gritava era somente em razão da circunstância enervante. Bradava vigorosamente, encarnado de súplica e lavado em lágrimas 'Minha mamãzinha, por favor! Está a doer tanto! Está a doer imenso!' e eu não podia parar com aquilo, claro! (Não que não tivesse vontade!) Foram só uns minutos, é um facto. Recuperou rapidamente o controlo e as estribeiras a seguir, outro facto! Mas o meu filho a gritar por mim para o ajudar e eu limitada a afagar-lhe a face e  a limpar-lhe lágrimas. Parece que tenho um punhal cravado no peito. Não me tenho como uma mãe histérica, nada disso, ele magoou-se mas está óptimo, há muitas coisas bem piores que não aconteceram com ele e por isso é um felizardo e eu também, mas eu passava bem sem mais esta.

Vai ser uma aventura agora dar-lhe banho sem molhar a mão e eu aposto aqui as minhas fichinhas todas em como amanhã ao final do dia aquele penso vai estar encardido, negro como carvão, não será grave, de todo o modo, porque ganhámos o direito ir ao centro clínico de dois em dois dias durante os próximos dez dias para refazer o penso e vigiar a cicatrização - depois deste 'Mamã, eu não adoro nada estes médicos!', a tarefa não se avizinha fácil.

Que isto não aconteça muitas vezes ou eu sucumbo! Por razões que a própria razão desconhece eu levo-me a acreditar que posso evitar que os meus filhos sofram porque sou mãe deles e mãe é lei!, mas não posso (nunca ninguém faz aquilo que eu mando, parece que falo para as paredes!), não tenho, afinal, nenhum super poder para além de os amar infindavelmente.

Silence

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Et voyez-vous, mon enfant, il vient dans la vie une heure dont vous êtes bien loin encore où les yeux las ne tolèrent plus qu'une lumière, celle qu'une belle nuit comme celle-ci prépare et distille avec l'obscurité, où les oreilles ne peuvent plus écouter de musique que celle que joue le clair de lune sur la flûte du silence.

Marcel Proust


Abundância - IV: A UNESCO

E finalmente, quando uma pessoa vai a pensar que a semana já não dá mais sumo, os EUA saem da UNESCO (na verdade, depois disto, não estivesse eu zonza de sono, ainda haveria espaço para falar dos cães nos restaurantes, que nojo!; do orçamento de estado; do furacão Ophelia; ou dos incêndios em Outubro, mais dia menos dia precisamos de ter uma conversa sobre este assunto, não acreditei hoje que a esta altura do campeonato o fogo voltasse a estas  proporções).

Os EUA que já não andam muito amigos da ONU decidiram gritar Ipiranga, levantaram o rabo e deixaram vazia a cadeira na UNESCO. Foi levantada a património mundial a cidade de Hebron na Cisjordânia e os tipos da UNESCO, que não têm onde cair mortos, tiveram o desplante de considerar que o património está em risco porque a zona está militarizada por Israel para proteger os colonos abandonados no meio de um bando de palestinianos. Já em 2016 a UNESCO teve a lata de emitir uma resolução em que se referia a património em Jerusalém oriental relevante para as 3 religiões e optou pela designação árabe. Não fosse tudo isto o suficiente, agora que a liderança da organização está prestes a mudar há uma série de sérios candidatos árabes e muçulmanos. Parece uma conspiração contra Israel, os EUA já tinham cortado o financiamento, mas agora saltou a tampa, acabou-se a papa doce, deixam a organização (mas só a partir de Janeiro de 2019 e mesmo depois manter-se à como não-membro observante, mas isso são detalhes!). No meio de tanta filantropia árabe até eu me aborreço. Malta, wake up, anda tudo parvo?! A islamofobia é obrigatória para ser do clube, isto não pode ser só amuo do capitão, Israel bateu com a porta de seguida. (Tirando ali a negociação pelo país que vai acolher a negociação em bolsa das acções da Aramco, a maior petrolífera da Arábia Saudita. Mas esses são árabes eruditos, uma casta completamente diferente!)

Eu desta vez não me vou alongar muito sobre o assunto (estou mesmo a ficar com sono!), fica prometido para uma próxima, mas em relação a Israel eu não me posso impedir de dizer o que tenho entalado na garganta, se uma pessoa se afasta um bocadinho do guião - o zionismo é o direito de um povo à sua terra - (já agora, não se esqueçam de dizer isso ao amigos do califado!) passa imediatamente a anti-semita (culpado pelo holocausto!) e apoiante dos terroristas, daquela gente que só sabe andar em guerra! Logo eu, que admiro imenso o judaísmo enquanto cultura raiz do cristianismo, perfeitamente solidária com a dor hebraica, horrorizada pelas perseguições na história século atrás de século, corro o risco de ser anti-semita. Entristece-me o estado da arte, e acho que me posso comover com a dor hebraica como com a dor palestiniana, afinal sofrer é sofrer e morte é morte. Eu comecei este texto (vide Abundância - Preâmbulo) por enaltecer o diálogo, veículo triunfal para o enriquecimento das pessoas e dos povos. Gritar não é falar.

FIM

Abundância - III: O Sócrates

Andava eu muito atenta à Catalunha, sai, finalmente, a acusação ao nosso Sócrates. A coisa parece muito complicada, mas não é, é só isto: corrupção, servir interesses pessoais com meios e lugares públicos. Um esquema complexo  montado para receber subornos que mete amigos, contas na Suiça, offshores no Panamá, empresas de construção em Angola e por aí em diante. Uma OPAzita aqui, outra acolá, banqueiros endinheirados de boas famílias (cof, cof, Salgado). Same old same. De repente os esqueletos saltam dos armários e está o circo montado, escrevem-se livros, vendem-se revistas e queimam-se bruxas no pelouro...

Por motivos que agora não importam assim tanto, esta semana pus-me a revisitar o assunto 'Subprimes e a crise de 2008'  com os tipos da Lehman Brothers a depôr 'Não acha que vender produtos financeiros que consideram uma porcaria para receber comissões chorudas é pouco ético?', 'Quem, eu?! Não! Nunca!'.


Os meandros deste esquema de corrupção são criativos e por isso, morda-se-me a língua, interessantes de conhecer, o caso Lehman Brothers então, meu Deus, como foi possível um enredo desta envergadura?! Mas eu gosto de me debruçar no depois do leite derramado, quando vezes e vezes, com culpado escrito na testa, se jura inocência. Criminoso, eu?! Nunca! Corrupto? Jamais! E chega porque em mais conversa se pode tropeçar nas palavras. - É minha convicção que se cria todo um contexto para relativizar as acções, se acreditarmos muito n uma mentira ela torna-se verdade, não é incrível? Não é assim tão mau, ninguém vai descobrir e vão sendo dados passos para o precipício até que a linha da moralidade é transposta sem que sejam disparados alarmes, mais instinto que racionalidade. Tão fácil que é esquecer que todo o acto traz consequências e que a nossa posição pode ampliar o impacto das acções, à escala global, veja-se o caso da Lehman Brothers (coitados, não foram os únicos, e o problema aqui transcende este banco em larga escala, mas serve para amostra). O egoísmo, como o altruísmo!, não surge em termos absolutos, antes em grau maior ou menor. Quando é que um instinto de sobrevivência se torna uma arma? Não sei, mas o ser humano intriga-me. 

Abundância - II: A Catalunha

domingo, 15 de outubro de 2017

E está uma pessoa muito sossegadinha no recato da sua vida e vai dar com o Puigdemont a declarar a independência da Catalunha, com efeitos suspensos, mas ainda assim! Eu tive de prestar um bocadinho da minha atenção a isto.

Nem todos os países são a paz de fronteiras do nosso rectângulo à beira mar mar plantado, com o território bem definido há séculos e sem grandes chatices pelo meio, mas a Europa, entenda-se, é uma salganhada de povos, línguas, culturas e história. Andaram todos às turras com todos e se nos dias que correm há países unificados que vivem bem com o resultado, como a Alemanha ou a Itália, outros há onde volta e meia se aquecem ânimos e vem a conversa do divórcio para cima da mesa, o Reino Unido e Espanha são exemplo disso, mas temos também a Bélgica ali no lusco fusco com problemas do tipo. Depois temos ainda casos como os balcãs em que cada um decidiu pegar na sua trouxa, levar a escovinha de dentes e seguir o seu caminho. Europeísta ou não é necessário compreender o pluralismo europeu antes de se avançar pela Catalunha. 

Espanha tem passo, neste contexto, os últimos séculos a afinar o território e o conceito de nação. É um reino formado por comunidade autónomas. Porque é preciso começar por algum lado, começamos pelo último século, durante a ditadura franquista os catalães passaram um mau bocado: o regime, apesar de ter incentivado a actividade industrial e bancária, procurou exterminar a identidade catalã, havia censura e falar a língua de 'cão' em vez da língua do império era motivo suficiente para a pena de morte. Não há nada pior que se possa fazer a um povo do que humilhá-lo, as feridas de orgulho são muito difíceis de perdoar. Long story short, quando o general Franco morreu, a ditadura acabou e a monarquia de Bourbon voltou a casa, a Catalunha pareceu ver no horizonte a independência aproximar-se, mas a coisa não se deu exactamente assim, foi criado um estatuto de autonomia para a Catalunha que a tem como região, e, por conseguinte, nem estado nem nação (Auch!) e que deixa a língua castelhana como oficial e veicular, sendo o catalão o idioma pijama roupa velha de andar por casa. Em torno destes pontos foram havendo batalhas para o reconhecimento da nação e foram dados passitos, na autonomia catalã cabe o seu próprio governo e parlamento (onde não se pode discutir em catalão, note-se!), e o próprio sistema de ensino.

Nas últimas décadas temos vindo a ouvir notícias sem as escutar, os catalães têm estrebuchado que não são espanhóis e por isso não têm nada que sustentar Espanha com 20% do PIB (25% das exportações e 23% da indústria - em 17 regiões autónomas!) e ainda levar com austeridade por cima. Que Espanha é corrupta, distribui injustamente os recursos e eles não têm nada que ver com isso. afinal a quem é que Franco chamou 'cães'? Curiosamente é a camada mais jovem sem memória do franquismo que tem vindo a despertar o nacionalismo catalão. Os jovens são naturalmente enérgicos e sedentos de sentido de vida, particularmente permeáveis a retórica que lhes dê poder, significado e lugar, apesar de que os argumentos simples de oposição carecem por natureza da complexidade, sensatez e crítica da verdade. (É por causa do impulso juvenil que a educação deve comprometer e enraizar as crianças embebendo-as em valores sólidos que os permitam questionar aquilo com que se hão-de cruzar.) 

Para legitimar a buscar por independência, a Catalunha recorre ao princípio de autodeterminação dos povos, princípio fulcral do Direito internacional supra-positivo que dita que os povos têm direito ao seu próprio governo e ao reconhecimento da  sua soberania, princípio alias que veio a ser incluído na carta das nações unidas. 

Pois bem, e que diz o reino espanhol disto tudo? Diz que não! Não percam o juízo, isso do princípio de autodeterminação, concentrem-se, é para as colónias não para as regiões autónomas, a Constituição (pós ditadura) é soberana e diz ali no artigo segundo 'la indisoluble unidad de la Nacion española, patria común e indivisible de todos los españoles' portanto isso da nação catalã não existe e assunto encerrado, que dar ouvidos a estes golpistas suicidas é um disparate tremendo, a Catalunha não tem economia para se sustentar e a independência seria um grande tiro no pé. Já tem governo, polícia, parlamento, sistema fiscal e ensino bilingue, querem mais o quê? Só estão assim mais para o limitados em termos de política externa, económica e monetária (o que é para vocês, catalães, diz Espanha enfadada, uma dor de cabeça de que vos poupo!). Não há mais nada a discutir.

Aparentemente ainda há o que discutir, depois de anos a implorar por um referendo, o governo catalão não foi de modas e preparou o seu próprio referendo de autodeterminação, naquilo que foi um inegável movimento social, isto sim, foi uma dor de cabeça. O referendo foi tido como ilegal, inconstitucional mesmo, ali a violar o artigo 2.º da Constituição descaradamente. O governo central, qual marido traído enraivecido, deu o bonito espectáculo que se viu com a proibição da promoção do referendo, Madrid foi hostil, enviou a guarda civil e a polícia nacional para ocupar os locais de voto e impedir os eleitores de votar com cargas policiais de que resultaram perto de 900 feridos. 

Deste referendo resultou que sem uma comissão eleitoral que possa assegurar o controlo ninguém sabe se o ‘sim’ vencedor com 90% dos votos é fidedigno ou não. Apesar da forte expressão não se pode confirmar se os votos foram contados uma ou cinquenta vezes. Sabe-se que só 43% dos eleitores votaram, se os restantes não votaram porque não conseguiram; porque votariam não se considerassem o referendo legal e por não o considerarem não tomar a atitude de o legitimar com o seu papelito na urna; ou porque simplesmente não querem saber, é uma incógnita. (Quando a pouco e pouco se foi ampliando o direito a aceder às urnas, havia uma voz que queria ser ouvida, mas há que aceitar que esse combate não significa que não exista quem apenas não esteja preocupado, a cidadania precisa de educação e quando existe algo como marketing político para influenciar as decisões das massas como se escolhessem o detergente para a máquina, há qualquer coisa que não está bem.)

O governo catalão, na pessoa de Puigdemont, decidiu que este resultado aliado à repressão do governo centra só pode ter um seguimento: a independência, mas para que a transição seja suave a declaração estipula que os efeitos da independência devem manter-se em suspenso para haja diálogo sobre o processo de separação, e nisto pisca o olho à comunidade internacional, quem quiser dar uma ajudinha mediando o diálogo com o patrão é muito bem vindo. Em resposta ao piscar de olhos, cada país assobiou para o lado, que a roupa suja lava-se em casa e entre marido e mulher não se mete a colher, e já agora, pode a Catalunha ir tirando o cavalinho da chuva que não vai estar na união europeia assim só porque lhe dá vontade, vai ter que passar pelo processo de adesão. A preocupação está em que a economia espanhola trema com o fecho das fronteiras da Catalunha, a inflação sobrem os juros disparam e a coisa descarrila, o dominó do costume. Este perigo para Espanha é coisa aliás que o Rajoy não ignora, o primeiro ministro espanhol, que quer dar rédea curta, respondeu à declaração com um 'Ora diz lá outra vez!!', o Puigdemont tem até amanhã para confirmar se declarou a independência ou não, parece que o discurso foi vago, e confirmando, até dia 19, quinta-feira para recuar. Caso não o faça, lá vai o governo central usar a Constituição pós franquista e accionar o Art. 155.º para usar as medidas necessárias à reposição da legalidade, isto é, para suspender a autonomia da região e chamar a si os poderes autónomos.

Eu disse que isto é uma encrenca e é! O Rajoy ainda deu espaço à revisão constitucional, que até podemos pensar em aumentar um titi a autonomia catalã e eu acredito que a coisa fique por aí. Vão todos beber chá enquanto jogam Risco, até que alguém que andou a entornar whiskey na chávena tropece e derrube as peças do tabuleiro para o chão para que não haja nem vencidos nem derrotados... 'Eu ia ganhar mas...'

Abundância - I: A Madonna

A Madonna já não é só a rainha da Pop, é a encarnação do que mais me apoquenta em Lisboa: o turismo em berra e a falta de casas no mercado por causa deste BOOM do investimento estrangeiro no imobiliário da minha capital.

A pobrezita da Madonna queixava-se, nesta semana que passou, da dificuldade em encontrar casa por Lisboa, todo um desespero num desabafo escarrapachado como legenda de uma fotografia no instagram. Pois bem, se há pessoa que compreende a Madonna, essa pessoa sou eu! Continuo a morar em Oeiras (como desde os meus 14 anos!) e para poder chegar à ponta de Lisboa onde trabalho às 9 horas (atrasada!) saio de casa pelas 7h15. Não saio sozinha, saio com o meu marido e com os meus dois filhos (de três e quatro anos!), significa portanto que até às sete horas e um quarto dois adultos têm que acordar, dar de comer, lavar e vestir duas crianças para pôr o pé na rua mesmo a tempo de ver o sol nascer. Os meus filhos perguntam todos os dias se têm mesmo que se levantar enquanto ainda está escuro, e o meu coração parte-se em bocados. Uso o GPS de casa para o trabalho para estar a par do trânsito e vejo de 5 em 5 minutos o tempo do percurso a aumentar, quando chego às portagens na A5 já uma fila de carros estanque me aguarda. Para evitar um atraso escandaloso esgoto o meu plafond de pontos da carta de condução a cada manhã, e o que poderia ser um momento de alegria, afinal estamos juntos (umas vezes os quatro, outras os três, vai variando!) é um stress desmedido que os miúdos apreendem 'Rápido, entrem no carro!', 'Despachem-se, tirem os cintos e peguem nas mochilas!', 'Vite, vite, vite!!!', às tantas já não posso fazer mais nada, sair de casa mais cedo é completamente inviável. Vamos andando, devagar devagarinho pela estrada fora a ouvir a Smooth FM  para acalmar os ânimos. (A propósito, um pequeno aparte: durante anos eu ouvia, pela manhã, a Rádio Comecial, mas fartei-me do Pedro Ribeiro, encheu-se me o saco! Anda o mundo inteiro a fazer-se de mais esperto do que é, e este idiota a fingir-se de parvo 'Hoje é dia do ovo. Vou fazer uma piada: eu não ouvo!' Pachorra para um director de rádio que acha que a estupidez é cool. Para além de que estes formatos estão esgotadinhos até ao tutano e já ninguém aguenta ir a ouvir música shake that ass pela alvorada.)

Ao final do dia não me posso atrasar muito para chegar ao colégio antes das 18h45, voltar a enfiar as crianças no carro e chegar a casa pelas oito da noite para dar o jantar, dar os banho e meter os meninos a dormir, que no dia seguinte voltamos a despertar de noite para ver o mesmo filme e convém que as crianças durmam. Juro que é coisa que me atormenta o espírito, será que a falta de sono lhes pode vir a prejudicar o desenvolvimento? As crianças não deviam estar sujeitas a isto!

Ideia genial. Eureca! Mudamo-nos para Lisboa, onde trabalhamos e os miúdos 'estudam'! Mas Lisboa não nos quer. Nós somos uma família jovem da classe média, aquela que nem é pobre para ter facilidades (pois que a pobreza também não a desejo a ninguém!) nem rica para não precisar delas. Os jovens não podem comprar casa em Lisboa, é assumido. O imobiliário está inflacionadíssimo (está na Remax um anúncio de um t0 com 24 m2 à venda por 300 mil euros!) e isso tem uma explicação: nos seguimento da crise que tem afectado o nosso Portugalinho, o turismo (um dos potenciais da nossa economia, mas não o único!) tem sido uma bóia de salvação. Lisboa está nova, moderna, cool e dinamizada. Um destino de sonho na Europa que cabe em todas as bolsas.  A maior procura de habitação para turismo aliado aos incentivos de atracção de investimento estrangeiro têm resultado para todos menos para mim e para os meus filhos que acordam de noite. As pessoas têm vindo a fugir para os subúrbios e a entupir-me o tráfego. Eu já cá estava há cinco anos, há dez, há mais... Eu vejo a diferença! Mas a verdade é que é só o resultado de uma inflação desenfreada que, claro, vai tombar. É sempre assim, basta uma faísca na engrenagem desta economia e espatifamo-nos todos escadaria abaixo.  Sei lá, uma alteração nas condições para o turismo, pode ser uma questão de moda, pode ser uma modificação na legislação (quiçá o governo percebe que pode arrecadar mais uns trocos aumentando a tributação sobre o rendimento deste tipo de arrendamento), na verdade não me parece necessário ser criativo, é só necessário ter uma bola de cristal para antever qual o factor que vai alterar o momento económico actual. Vamos padecer, claro! As empresas ficam em aperto e por detrás das empresas as pessoas mas a bolha vai expirar. A compra de casa agora será sempre uma perda de dinheiro a médio prazo, portanto, Madonna, é ter paciência! Custa, meus senhores custa, mas não há outro remédio se não ter calma.

Abundância - Preâmbulo

Oh! Meu Deus! Indiferentes à sua sorte as pequenas vítimas divertem-se.
T. Gray

O que as opiniões têm de fantástico é que são passíveis de ser alteradas, isto não é dizer que seja particularmente bonito dizer hoje uma coisa e amanhã o contrário, mas o que acontece é que sou constantemente obrigada a processar a informação que me é bombardeada pela rama, ora na medida em que preciso (de precisão!) e aprofundo as referências, a minha opinião inicial pode, azar dos azares, vir a alterar-se. Não conheço (nem me atrevo a dizer detenho, porque ter não tenho coisa nenhuma) a verdade toda, e isto é ponto de partida. Pois claro que não conheço a verdade toda, porque como um todo não existe, existe somente a verdade que cada um leva consigo ao final do dia. Não quero dizer, atenção, que acredito no relativismo puro (que chega a ser um problema) de que o que é verde para mim pode não ser para ti (a relva é verde, pode ser amarela acastanhada mas em princípio não é azul ou encarnada), o que eu quero dizer é que a percepção de que a relva é verde está comigo e vai comigo até que a ofereça para que o mundo lhe tenha acesso, e acreditar se quiser. Se há muito que todos podemos ver, também há tanto que está diluído na individualidade da pessoalidade de cada um. O diálogo desobstrui e desconstrói as certezas prementes no absolutismo. Convém ser crítico e questionar over and over again. Não é fácil, perguntar é assumir o desconhecimento (e inferioridade de domínio), mas assim de repente é dos modos mais eficazes de evoluir, só são encontradas respostas para as dúvidas que se colocam. He who asks a question remains a fool for five minutes, but he who doesn't remains a fool forever. Eu não sou especialista em coisa nenhuma excepto no modo como absorvo aquilo que me impacta de uma ordem ou outra, o começo é a comichão que sentimos. Esta semana fervilhei de opinião. Para não escrever um tratado aborrecidíssimo resolvi dividir este texto em 5 partes: Preâmbulo; A Madonna; A Catalunha; O Sócrates; e A Unesco. Assim pelo menos podemos respirar nos intervalos. Bem poderia chamar a este mega texto o balanço da semana que passou escrito no Domingo à noite. Aqui vai água...

'Travessuras da Menina Má' de Mario Vargas Llosa, Dom Quixote

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Sinopse

Ricardo vê cumprido, muito cedo na vida, o sonho que sempre alimentara de viver em Paris. Mas o reencontro com um amor da adolescência mudará tudo. Essa jovem inconformista, aventureira, pragmática e inquieta arrastá-lo-á para fora do estreito mundo das suas ambições. Combinando realidade e ficção, Llosa cria um admirável diálogo entre o cómico e o trágico para dar vida e alimentar uma história na qual o amor se revela indefinível. Paixão e distância, sorte e destino, dor e prazer… Qual será o verdadeiro rosto do amor?


La Revue

Esta história atravessa décadas, dos anos 50 aos anos 80, começa no Peru, passa pela Ásia e desenrola-se na Europa. Eu gosto disto, de histórias que vigiam toda a existência do protagonista, a existência que permanece e se vai erodindo e corroendo enquanto passam ventos e tempestades.

Ricardo Somocurcio é um expatriado peruano cuja única aspiração era vir a viver em Paris. Pois bem, missão cumprida, já não pertence a lugar nenhum! Estudou idiomas e fez-se intérprete, um fantasma que vive de dizer as palavras dos outros sem deixar marca sua no mundo. Tão modesto e despido de ambição, o Ricardito. Entusiasmou-se na adolescência por aquela que o devorou a vida inteira, a menina má: a galopante social, cruel e egoísta que se cruza com ele, indiferente aos riscos e danos, vezes e vezes durante a vida ao saber do acaso e do destino (?!) para dar forma a uma obsessão doentia, a vida dos dois é uma humilhação inconcebível a que chamam de amor. É sobre este descontrolo de fantasia e projecção do amor que o livro se amplia. Os encontros faseados em períodos distintos da vida de um e outro revelam a inconvencionalidade da paixão, o despojo de si, o resto da vida não é mais que o monótono rasgar das folhas do calendário. Quem é a menina má? A vida corre e ela não tem uma, tem várias identidades, de  modo que quem ela é não interessa tanto quanto as acções que escolhe tomar. Como é possível a afeição a uma personagem sem um nome próprio verosímil? É uma sobrevivente aguerrida ou uma ambiciosa feroz? O livro está tão bem construído que ao penetrarmos tão profundamente no estado de confusão emocional desta relação não sabemos se haver de a condenar ou não. Juramos para nunca mais, mas afinal só mais uma vez e talvez esta vez seja derradeira. 

Quando um romance (digo novel) é tão intenso é difícil terminá-lo, mas não este, este romance é uma obra-prima e por isso o desfecho é sereno e apaziguador.

A escrita é corrida, sem pausas artificiais - uma coisa leva a outra e a vida é mesmo assim. São muitos os diálogos e há poucos momentos lentos ou parados. Em 2010 Vargas Llosa venceu o Nobel da Literatura pela sua cartografia das estruturas do poder e pelas suas imagens mordazes da resistência, revolta e derrota dos indivíduos, aqui está bem presente a localização e memória política de cada década atravessada, mas nas Travessuras verdadeiramente esmiuçada está uma existência alheada e descomprometida de tudo o que é redor.

O Princípio de Peter ou porque é que as coisas andam sempre mal

domingo, 8 de outubro de 2017

Os animais conhecem os seus limites;
Um urso não tentará voar,
Um cavalo doente debater-se-á
Antes de saltar a grade de cinco barras.
um cão, por instinto, passa longe 
Se vê um poço fundo e largo demais.
Mas o Homem, cremos nós, é aquela criatura
Que, levada pela loucura, combate a natureza;
Que, ao seu grito clamoroso - Pára!
Obstinadamente, prossegue;
E que, absurdamente, se empenha em realizar
Aquilo para que o seu génio menos se inclina.

Jonathan Swift

Lawrence J. Peter e Ray,ond Hull criaram em 1969 o Princípio de Peter segundo o qual numa hierarquia todo o empregado tende a elevar-se até ao seu ponto de incompetência.

Todo e qualquer um de nós, humildes humanos, tem o seu ponto de incompetência, se eu me propuser no cockpit de um F16 a carregar em botões para que o aparelho descole é provável que isso não aconteça, acontecendo serão de prever apertos, do mesmo modo não é muito provável que seja capaz de, acidentalmente, descobrir a cura para o cancro, e ser CEO de uma multinacional tecnológica é areia a mais para o meu camião (nem multinacional, nem tecnológica!), mas a coisa não é sempre assim tão simples, por vezes a competência, ou a falta dela, não é nem óbvia nem fácil de reconhecer. Porque é que encontramos pessoas que não sabem nadar numa piscina onde não têm pé, incapazes de funcionar num cargo que lhes foi atribuído? (Em princípio, nos dias que correm, em lugares de controlo pouco apertado, cof cof, público!) De acordo com o Princípio de Peter isso acontece porque numa organização hierárquica (Auch! Não podemos mandar todos o mesmo!) os empregados são promovidos com base no que podem ser e não no que são (há sempre uma primeira vez para tudo, acreditamos!). A promoção reconhecendo o mérito de uma competência a um nível, conjura como possível quase certa uma outra, o salto que se dá de operacional a gestor não considera, para estes autores, a exigência de skills e atributos distintos. Um empregado competente é elegível para futuras e sucessivas promoções até se tornar incompetente, ora, assim, todo o trabalho de uma organização é produzido, a custo e em duelo, por aqueles desgraçados que ainda não alcançaram o seu ponto de incompetência, onde o trabalho será arrasto e o talento menor que o necessário.

Uma má chefia reduz a eficácia dos subordinados, Peter e Hull tambem se debruçam sobre este assunto, os atributos de um bom subordinado não são exactamente os mesmos que os de um bom chefe, aquele que é tão espantoso a obedecer as ordens há-de ser elevado para o lugar  de onde precisará da capacidade para as emanar. A mera obediência acrítica potencia a promoção, já que as operações correm, em princípio, bem, já o que se segue... Por outro lado, os subordinados talentosos e criativos, acabam for fugir a sete pés. É que a super-competência é um incómodo que estabelece um patamar que os incompetentes não podem alcançar e deixa a organização desconfortável. Vejamos:

W. Wheeler era um rapaz que fazia a entrega de encomendas em bicicleta na Mercury Messenger Service. Wheeler sistematizou o seu trabalho de entrega até um ponto nunca atingido. Por exemplo, explorou e fez um mapa de todas as veredas, caminhos e atalhos na sua área; marcou com um cronómetro os períodos de tempo de todos os sinais luminosos de trânsito de forma a planear um itinerário que lhe evitasse qualquer demora.

Consequentemente, acabava a distribuição das encomendas diárias com duas ou mais horas de antecedência e passada o resto do tempo em cafés lendo livros sobre administração comercial. Quando começou a reorganizar os percursos dos outros colegas da distribuição foi despedido.

(...) Mas não tardou que montasse um negócio por conta própria, com a Pegasus Flying Delivaries e, passados três anos, deitara abaixo a Mercury.

Se o Princípio de Peter não resolve nada, pelo menos explica e estou crente que as organizações, desde 1969, estão bem a par do fenómeno. Acima do chefe está outro chefe, e outro, e outro, e alguém que controla o controlador de maneira a haver mecanismos contra o potencial (natural!) laxismo.

Habemus Nobel

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Depois do disparate Bob Dylan no ano passado, a Academia sueca voltou a entrar nos eixos! Sai um prémio Nobel da Literatura para o UK: Kazuo Ishiguro. São boas notícias para mim, Papa Nóbeis (só que não! Assim de repente só li uma meia dúzia: Hemingway, Steinbeck, Garcia Marquez, Albert Camus, Saramago, Vargas Llosa e Pablo Neruda! Ainda me falta um bocadinho!). Em romances de grande força emocional, [Kazuro Ishiguro] revelou o abismo sob o sentido ilusório de conexão com o mundo. Disto é que eu gosto.



As Colinas de Nagasaqui, Relógio d'Água

In his highly acclaimed debut, A Pale View of Hills, Kazuo Ishiguro tells the story of Etsuko, a Japanese woman now living alone in England, dwelling on the recent suicide of her daughter. Retreating into the past, she finds herself reliving one particular hot summer in Nagasaki, when she and her friends struggled to rebuild their lives after the war. But then as she recalls her strange friendship with Sachiko - a wealthy woman reduced to vagrancy - the memories take on a disturbing cast. 


Um artista do mundo transitório, Livro Aberto

In An Artist of the Floating World, Kazuo Ishiguro offers readers of the English language an authentic look at postwar Japan, "a floating world" of changing cultural behaviors, shifting societal patterns and troubling questions. Ishiguro, who was born in Nagasaki in 1954 but moved to England in 1960, writes the story of Masuji Ono, a bohemian artist and purveyor of the night life who became a propagandist for Japanese imperialism during the war. But the war is over. Japan lost, Ono's wife and son have been killed, and many young people blame the imperialists for leading the country to disaster. What's left for Ono? Ishiguro's treatment of this story earned a 1986 Whitbread Prize.


Os despojos do dia, Gradiva

It is 1956, Stevens, the ageing butler of Darlington Hall, has just embarked on a motoring trip through the west of England that will become a journey deep into his past..


Os inconsolados, Gradiva

Ryder, a renowned pianist, arrives in a Central European city he cannot identify for a concert he cannot remember agreeing to give. But then as he traverses a landscape by turns eerie and comical – and always strangely malleable, as a dream might be - he comes steadily to realise he is facing the most crucial performance of his life.

Ishiguro's extraordinary and original study of a man whose life has accelerated beyond his control was met on publication by consternation, vilification – and the highest praise. 


Quando éramos órfãos, Gradiva

Passando-se entre as cidades de Londres e Xangai dos anos entre as duas guerras, este livro é uma história de recordações, intriga e necessidade de regressar, de uma visão infantil do mundo que o domina, moldando indelevelmente e distorcendo a vida das personagens.


Nunca me deixes, Gradiva

Kazuo Ishiguro foi elogiado no Sunday Times por «ampliar as possibilidades da ficção». Em "Nunca Me Deixes", que se encontra certamente entre as suas melhores obras, conta-nos uma extraordinária história de amor, perda e verdades escondidas.

Kathy, Ruth e Tommy cresceram em Hailsham – um colégio interno idílico situado algures na província inglesa. Foram educados com esmero, cuidadosamente protegidos do mundo exterior e levados a crer que eram especiais. Mas o que os espera para além dos muros de Hailsham? Qual é, de facto, a sua razão de ser?

Só vários anos mais tarde, Kathy, agora uma jovem mulher de 31 anos, se permite ceder aos apelos da memória. O que se segue é a perturbadora história de como Kathy, Ruth e Tommy enfrentam aos poucos a verdade sobre uma infância aparentemente feliz — e sobre o futuro que lhes está destinado.
Nunca Me Deixes é um romance profundamente comovedor, atravessado por uma percepção singular da fragilidade da vida humana.



O gigante enterrado, Gradiva

Tudo se passa há muitos, muitos anos, num local de fronteiras bem diferentes das actuais e marcado por grandes extensões de solo árido. Nalgumas zonas, os aldeões viviam em abrigos, parte dos quais cavados na encosta dos montes, ligados uns aos outros por passagens subterrâneas. Era num sítio assim que habitava o casal de idosos que tem lugar central nesta história: Axl e Beatrice. Um dia os dois decidiram ter chegado a hora de procurar o filho que há muito não viam e de quem pouco se recordavam. Naquele tempo longínquo esta era uma viagem que, previsivelmente, traria perigos. Mas aquela proporcionou muito mais do que isso. Uma amnésia colectiva parecia ter-se instalado naquela zona, como uma névoa que descera à terra para fazer esquecer em parte o passado, individual e colectivo. Mas a viagem de Axl e Beatrice revela-se um regresso à lembrança. E esta nem sempre deixa um rasto feliz.

Esta é uma história sobre memórias perdidas, amor, vingança e guerra. É ainda uma história que recua ao passado, transportando o leitor para terrenos percorridos por cavaleiros do rei Artur e monges, ogres e dragões. Um dragão em particular - Querig - é o foco das atenções. E, em relação a ele, as missões dividem-se. A diferença entre poupá-lo ou tirar-lhe a vida pouco tem de fantasia. Depois de dez anos sem publicar ficção de fôlego, Ishiguro apresenta-se agora com uma história inesperada que, por certo, fica na memória.

Couple goals

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O meu marido lê bastante, lê artigos, lê livos técnicos, 'Management não sei o quê', 'Leadership não sei que mais', 'Efficiency e tal', mas não lê romances. Eu deleito-me no cinzento, ele é preto no branco. Ele das engenharias, eu do Direito por linhas tortas, mas o amor também é compromisso e por isso tantas vezes damos um passo eu para lá, ele outro para cá. Combinámos que ele vai ler um romance indicado por mim e eu vou aprender a programar. Eu adoro o excel, e chega! Tive, certa vez, uma experiência traumática com o Access, que diz que não é programação sequer, e jurei para nunca mais, enfim, promessas leva-as o vento, e e agora, under construction, vai nascer o 'Hello world' que não faço ideia do que seja.

Para que o homem não se aborreça (reforço que estamos a falar de uma pessoa que se diverte a ler  'Management não sei o quê')  escolhi-lhe 'A analfabeta que era um génio dos números' (editado pela Relógio d'Água, a editora que nunca me desiludiu) do Jonas Jonasson, senhor que com um nome tão pouco imaginativo (Jonas, filho de Jonas) é possivelmente o autor mais criativo que conheço. O primeiro livro que li do Jonas foi 'O centenário que fugiu pela janela e desapareceu': Allan Karlsson no dia em que faz cem anos foge do lar, sem grande coisa a perder, para viver uma aventura que mete malas de viagem cheias de dinheiro, máfia, elefantes domésticos, Churcill e Mao Tsé-Tsung. Depois deste êxito (já agora, transformado no filme sueco, o trailer em inglês engana!, que infelizmente não foi capaz de fazer passar o tom hilariante da escrita do Jonas).


Depois do Centenário, o Jonas Jonasson escreveu 'A analfabeta que era um génio dos números', a história de uma rapariga sul africana, Nombeko Mayeki, oriunda de um bairro tremendamente pobre (paupérrimo!) a quem uma série de acontecimentos catapluta para a Suécia com duas chinesas e uma bomba nuclear para se cruzar com um par de gémeos (em que, na teoria, só um é que existe) e acabar salvar o rei. Se o facto de haver zero previsibilidade na história não fosse já suficientemente fantástico, a escrita do Jonas, tão elaboradamente cómica e inteligente tornam este livro um page turner de boa disposição incrível.

A probabilidade estatística de que uma analfabeta do Soweto da década de 1960 sobreviva e se encontre um dia num camião de distribuição de batatas em companhia do rei e do primeiro-ministro suecos é de uma em quarenta e cinco mil setecentos e sessenta e seis milhões duzentos e doze mil oitocentos e dez.
Isto segundo os cálculos da referida analfabeta.

Estou em crer que o homem não se vai aborrecer e já de seguida me pede outro assim (pena é não haver tantos!). Quanto à minha programação, enfim, conto sobreviver.

Com a sua fecunda imaginação e o seu sentido de humor irreverente, Jonas Jonasson imaginou uma história que ilumina a face oculta da história oficial. 
A improvável heroína do romance tem a sua origem no bairro do Soweto, o tristemente célebre gueto de Joanesburgo. Correm os anos setenta, em pleno auge do apartheid, quando Nombeko Mayeki, condenada a uma vida de infortúnio e com altas probabilidades de que esta acabe numa idade prematura ante a indiferença dos que a rodeiam, encontra uma brecha para fugir do seu infausto futuro. Dotada de um intelecto fora de série, e impulsionada pela força de um destino que executa as mais estranhas piruetas, o acaso projeta Nombeko para longe do seu meio de miséria e leva-a numa assombrosa viagem na qual encontrará personagens de toda a espécie, desde um falso especialista em física nuclear e dois agentes da Mossad, até um rei da Suécia com um rosto humano e uma jovem antissistema em permanente estado de ebulição. Assim, a genial Nombeko percorrerá um insólito itinerário, até descobrir o seu lugar no mundo nas frias terras escandinavas, um lugar com que nunca se teria atrevido a sonhar.

Com muita pena minha depois desta história milaborante, o Jonas cansou-se de ser épico e escreveu 'Hitman Anders and the meaninuug of it all' que é assim o mais próximo que ele pode estar de um fiasco, mas a vida é mesmo assim, não se pode ser sempre espectacular, vou concerteza ler o próximo livro com grandes ganas de gargalhar.

First they killed my father

quarta-feira, 4 de outubro de 2017



From 1975 to 1979—through execution, starvation, disease, and forced labor—the Khmer Rouge systematically killed an estimated two million Cambodians, almost a fourth of the country's population. This is a story of survival: my own and my family's. Though these events constitute my own experience, my story mirrors that of millions of Cambodians. If you had been living in Cambodia during this period, this would be your story too.

Loung Ung

Et voilà, la relance!

domingo, 1 de outubro de 2017

Foge, cão, que te fazem Barão!
Mas para onde, se me fazem Visconde?


Almeida Garret

Young, wild and three

Aos trinta dias do mês de Setembro do ano da graça de dois mil e catorze nasceu o meu segundo filho. Estava um dia de Verão, nada como o de hoje ventoso e frio. Da janela do meu quarto de internamento via o sol dourar o encontro do Tejo com o Atlântico, nesse dia não senti uma aragem sequer, desventraram-me e fizeram nascer El Rei Dom Sebastião.

Eu já sabia que o meu pequeno rei precisaria de cuidados especiais à nascença, felizmente a cardiopatia já havia sido correctamente diagnosticada (fyi: transposição dos grandes vasos, incompatível com a vida, requer uma cirurgia correctiva em recém nascido) mas quando nasceu cinzento e prostrado fiei-me que nunca o haveria de pegar, o meu filho iria morrer sem um beijo meu. Aquelas primeiras horas não foram nada fáceis para ele, ali no vai não vai... Não foi! Nunca os ponteiros do relógio foram tão lentos, arrastaram-se vagarosamente durante vinte e quatro horas até eu ter liberdade para apertar o meu pequenino num colo constrangido de fios. Sete dias depois de nascer foi consumada a cirurgia,  o meu peito era uma vasilha de angustia até que o veredicto fosse certo: está a salvo! Nasceu outra vez (para a semana há mais bolo!). Naqueles dias de verão tardio houve gente que se dispôs  a salvar o meu passarinho.

Quando celebro o aniversário do meu filho, não celebro apenas o seu nascimento, celebro a finta ao destino. Ele ali a vencer campeonatos e eu, mãe orgulhosa, a aplaudir com vigor. Que desperdício da natureza seria não deixar o meu filho viver. Que bom tem sido vê-lo crescer e desabrochar. Que primor de existência: as mãos pequeninas que encaixam na concha que fazem as minhas, e o abraço apertadinho daqueles braços miúdos. Não diz mãe, diz mãezinha! É tão perfeito que não podia não existir. Seria um tremendo erro deixá-lo ir cinzento e apático, encheu-se de cor e salpicou-me a mim também. 

Três anos do meu pequeno Cebolinho, ou os mais completos da minha vida.