'I am so clever that sometimes I don't understand a single word of what I am saying.' Oscar Wilde

Família | Literatura | Lifestyle | Opinião

Vulnerabilidade

domingo, 26 de novembro de 2017

Aquilo que me deslumbra na literatura, já o tenho dito, é a habilidade dos autores para transpor sentimentos de alma para alma através de uma narrativa. O mesmo se passa com toda a arte, mesmo aquela que não se socorre de palavras. O desenho fascina-me precisamente pela comunicação além das palavras. É incrível o significado que pode ter uma imagem, como leva as mensagens em silêncio.

Abdalla Omari é um exilado sírio que vive em Bruxelas desde que fugiu da guerra em 2012 e calha que é pintor. Num projecto a que chamou 'The Vulnerability Series', Omari retratou os líderes mundiais feitos refugiados - a ideia aqui não é acusar ou atribuir culpas (pelo menos não é desse modo que eu entendo) mas antes demonstrar como até os poderosos são afinal homens. Despojados de poder, atirados para uma situação de vulnerabilidade dotou as figuras de humanidade.







'Lisboa em Camisa' de Gervásio Lobato, Guerra & Paz

Sinopse

- Então esses croquetes... gritou Justino já irritado […].

Gervásio Lobato fez furor há mais de um século. Jornalista e romancista, o seu humor e comicidade passaram de mãos em mãos, de geração em geração. Lisboa em Camisa foi, desde a publicação em 1882, o seu mais estrondoso êxito, com inúmeras edições. E quem conhece Gervásio Lobato? Outrora um dos grandes nomes do humor português, hoje é um autor esquecido, recordado apenas por uma rua com o seu nome, em Campo de Ourique.
Lobato capta pequenos quadros da vida quotidiana lisboeta e esmiúça comportamentos, ridiculariza-os e leva-os a um extremo em que o riso é inevitável. Tudo se passa em finais do século XIX, mas a paródia é actual: assistimos à sede de protagonismo, à mania da superioridade, a um certo cerimonialismo ou à falta dele.
As peripécias da família Antunes, dos seus sogros Martim (sem s), da família Torres, do conselheiro com as filhas casadoiras, e do Dr. Formigal, entre outras personagens muito caricatas.
O tema é Lisboa, uma Lisboa que o autor despe ou surpreende em camisa. Um romance que lido hoje é a actualidade apanhada em flagrante delito.

- Cala a boca, não respondas ao papá […].

La Revue

Esta história foi originalmente publicada como crónica em formato folhetim. O autor, Gervásio Lobato, foi um jornalista do século XIX que colaborou com todos os jornais da época e mais algum. Este é um romance leve, não na mensagem, mas no estilo. Numa dúzia de cenas o Gervásio Lobato construiu um enredo hilariante que retrata cheio de ironia e espontaneidade a nossa Lisboa de mil e oitocentos - burgueses em ascensão, nobres em declínio, a industrialização a dar os primeiros passos e o surgimento das profissões liberais; por outras palavras, uma salganhada de ministros, chefes de repartição, conselheiros, criadas, galegos e parteira. Temos aqui um Eça de Queiroz versão light.

Ill.mo Ex.mo Sr. [António Maria Fontes Pereira de Melo]

O abaixo assinado tendo tido há cinco dias a honra de enviar a V. Ex.a um convite para a soirée masquée que se há-de realizar hoje, 27 da corrente, pelas 9 horas da noite, na sua e de V. Ex.a cass, na Rua dos Fanqueiros, n.º..., 4.º andar, lado esquerdo, vem por este meio solicitar a alta comparência de V. Ex.ª a esse modesto recreio familiar, como o dia solicita do astro-rei os seus raios para bem merecer esse claro epíteto, e com humilde recato solicita a presença das donairosas naus, para ter a honra de porto franco. O suplicante fiel recruta do regimento que tem V. Ex.a por digníssimo piloto, sentindo pulsar-lhe no coração a bandeira que tremula nas mãos eloquentes do primeiro estadista português, espera que V. Ex.a lhe honre a sua soirée com a sua presença, mascarada ou não mascarada, como aprouver  V. Ex.a e como for mais consentâneo com os destinos deste nobre país.

Deus guarde V. Ex.a
Rua dos Fanqueiros, 27 de Fevereiro
Conselheiro Torres

O caminho é na vertical, tudo a trepar a escada social (o século XIX, dos pedaços da História de que mais gosto, é aqui flagrante!). Mais um pouco e eu sufocava de riso, uma pessoa não esboça um sorriso a ler o 'Lisboa em Camisa', uma pessoa acorda o marido porque não consegue conter as gargalhadas. Este livro não o recomendo a ninguém, considero-o de leitura obrigatória! Vivas à Guerra & Paz que este Verão editou esta pérola.


P.S.: A título de curiosidade - o nosso bem humorado Nuno Markl é trisneto do Gervásio Lobato. Giro, não é?

'As Bruxas' de Stacy Schiff, Marcador

domingo, 19 de novembro de 2017

Sinopse

O pânico começou no início de 1692, durante um inverno rigoroso como nenhum outro, em Massachusetts, quando a sobrinha de um pastor religioso começou subitamente a contorcer-se e a gritar.

A notícia espalhou-se rapidamente, deixando confusos até os homens mais esclarecidos e os políticos proeminentes da então colónia inglesa. Começaram as acusações perniciosas, entre vizinhos, maridos e mulheres, pais e filhos. Tudo acabaria apenas um ano mais tarde, mas a histeria resultara já no enforcamento de 19 homens e mulheres. 

Os julgamentos de Salem são um dos momentos em que as mulheres tiveram um papel central na história norte-americana. Com uma clareza devastadora, Schiff mostra-nos as tensões da vida colonial sob o puritanismo e obscurantismo religioso e dos inimigos invisíveis e inventados. 

As Bruxas é a história, verídica e fascinante, de um mistério primordial da história americana, aqui revelado com uma extraordinária atenção ao detalhe e a prosa empolgante de uma historiadora bestseller, vencedora do Prémio Pulitzer e aclamada pelo público.

La Revue

Tive vontade de ler 'As Bruxas' por reconhecer Stacy Schiff, historiadora vencedora de um Pulitzer e  autora de uma aclamadíssima biografia da Cleópatra. À partida a única coisa que eu sabia sobre as bruxas de Salem é que houve, em tempos idos, bruxas em Salem, ou seja, não sabia nada.

'As Bruxas' é um livro de não ficção, desenrola numa narrativa histórica e factual os acontecimentos de uma aldeia perto do Massachussets em 1692 (de tão repetida, nunca mais me esqueço desta data!). O interesse do livro está justamente no modo como põe limpidamente a descoberto como uma série de fantasias se tornaram realidade de grande dimensão numa aldeia remota da Nova Inglaterra colonial.

A Stacy Schiff, que uau! revela uma investigação bibliográfica mui extensa, coloca-nos num lugar de onde podemos observar como no século XVII razão e sobrenatural andavam de mãos dadas.  Fiquei a saber, por exemplo, que o John Locke, o meu querido John Locke, enquanto filosofava sobre a tábua rasa e o contrato social, passava também o tempo a indagar sobre bruxas, espíritos e alquimias. Este é um choque necessário para perceber qual a mentalidade que permitiu Salem. Salem em 1692 era uma pequena sociedade puritana onde a prática religiosa estava infectada de misticismo, os colonos desamparados, longe da civilização, procuram radicar-se e encontram significados em tudo na natureza, é um lugar desamparado onde o sobrenatural sustenta a comunidade - a moral revela-se pejada de magia. Duas miúdas de estatuto na aldeia, filhas de gente importante, note-se, dado o comportamento bizarro foram diagnosticadas pelas altas patentes da comunidade como estando embruxadas. Se as raparigas ficavam mudas, cegas, tinham convulsões e alucinações era porque alguém na aldeia andava metido em feitiçarias. Era evidente que numa sociedade tão beata e devota os espíritos malignos se sentiam tentados a vir perturbar os inocentes fazendo-se valer daqueles cuja natureza era perversa. As bruxas malvadas inferiam golpes as estas pobres míudas.

De repente desabrochou uma epidemia, os vizinhos acusavam-se, os maridos acusavam as mulheres, os pais, os filhos, os irmãos. Um pandemónio. Pelo sim pelo não antes estar do lado do acusador que do lado do acusado, e que cepticismo era um pecado grave, nos documentos que Schiff cita constam inúmeros testemunhos de gente de quem se espera juízo (digo gente com papel relevante na sociedade!) a jurar que viram gente voar montada numa vassoura. Para efeitos de justiça, tão grave um roubo ou um homicídio como andar a visitar os vizinhos em sonhos. Daqui resultaram centenas de acusações, um imbróglio processual, uma insegurança tremenda, uma histeria colectiva e 19 condenações à forca. Nesta altura Salem era uma aldeia claustrofóbica.

Se hoje não acreditamos em bruxas, eu, pelo menos, não deixo de acreditar em intrigas.

'Le livre des Baltimore' de Joël Dicker, De Fallois

domingo, 12 de novembro de 2017

Sinopse

Jusqu'au jour du Drame, il y avait deux familles Goldman. Les Goldman-de-Baltimore et les Goldman-de-Montclair. Les Goldman-de-Montclair, dont est issu Marcus Goldman, l'auteur de La Vérité sur l'Affaire Harry Quebert, sont une famille de la classe moyenne, habitant une petite maison à Montclair, dans le New Jersey. Les Goldman-de-Baltimore sont une famille prospère à qui tout sourit, vivant dans une luxueuse maison d'une banlieue riche de Baltimore, à qui Marcus vouait une admiration sans borne. Huit ans après le Drame, c'est l'histoire de sa famille que Marcus Goldman décide cette fois de raconter, lorsqu'en février 2012, il quitte l'hiver new-yorkais pour la chaleur tropicale de Boca Raton, en Floride, où il vient s'atteler à son prochain roman. Au gré des souvenirs de sa jeunesse, Marcus revient sur la vie et le destin des Goldman-de-Baltimore et la fascination qu'il éprouva jadis pour cette famille de l'Amérique huppée, entre les vacances à Miami, la maison de vacances dans les Hamptons et les frasques dans les écoles privées. Mais les années passent et le vernis des Baltimore s'effrite à mesure que le Drame se profile. Jusqu'au jour où tout bascule. Et cette question qui hante Marcus depuis : qu'est-il vraiment arrivé aux Goldman-de-Baltimore ?

La Revue

Quem não pesca grande coisa de francês, não se preocupe que em boa verdade a sinopse não diz nada de especial. Uma pessoa que não tenha lido o livro, da sinopse também não tira lá grande conclusão - o que é pena porque na evidência de não podermos ler todos os livros alguma vez publicados, as sinopses são uma boa ajuda para nos fazer render ao livro durante uns tempos.

O Joël Dicker é um jovem escritor suiço e este é o seu terceiro livro. Em 2010 escreveu o Les dernies jours de nos pères quue venceu o Prix des Écrivains Genevois e foi publicado pela de Fallois em Paris. Em 2012 escreveu La vérité sur l'affaire Harry Quebert que o lançou para a estratosfera literária. Este livro foi amplamente reconhecido e conseguiu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa. Em 2015 escreveu este 'Le livre des Baltimore' que também tem sido elogiado e manteve o rapaz no pódio.  

Da minha parte ler em francês tem sido um ensaio, depois de em Janeiro deste ano ter começado a trabalhar em Lisboa para Paris, senti vontade de voltar à língua francesa, esquecida e atirada para um campo na memória onde armazeno o que não me faz falta. Para reavivar a memória e aprender mais qualquer coisinha comecei a ler também em francês e o Joel tem uma escrita que não sendo demasiado simplista é perfeitamente acessível. Equipa que ganha não muda, já li todos os livros dele. O primeiro que li foi o aclamado La vérité sur l'affaire Harry Quebert, apesar de tão badalado não ecoou grande coisa em mim, talvez por ser um thriller e este estilo já não ser o meu favorito. É um livro coerente, bem escrito, cheio de mistério, mas que não me fascinou sobremaneira. O segundo foi o Les dernies jours de nos pères, melhor, é um livro Segunda Guerra Mundial que cumpre mas não comove enormemente.

Le livre des Baltimore é definitivamente o melhor livro que o Joël Dicker escreveu. Quando li a sinopse, na diagonal, julguei tratar-se de uma espécie de cem anos de solidão, uma história sobre uma família que atravessa as gerações, mas não podia estar mais enganada. Esta é a história de uma amizade entre três primos levada ao limite: Hillel, Woody e Marcus Goldman. A história é contada pelo Marcus em diversos tempos e cronologias. A geração anterior, o pai de Marcus e o pai de Hillel e Woody fizeram a vida separada, o primeiro em Mayfair e o segundo em Baltimore. Os Goldman de Baltimore são espectaculares, ricos e interessantes. Os Goldman de Mayfair são só os Mayfair: uma família banal de classe média. Entre os miúdos existe um vínculo incrível, ajudam-se e adaptam-se para se poderem encaixar e nunca se excluir. É aqui que o Joël é genial, a prosa enlaça-nos a estas personagens complexas, enche-as de dúvida e tribulação para que não consigamos cingir-nos a amar ou odiar cada um, temos que os compreender enquanto caminhamos para o clímax anunciado. Estamos desde o início à espera da tragédia enquanto se revelam, passo a passo, os esqueletos no armário. Vamos estabelecendo o porquê da fação Baltimore - se esta história tiver que ser sobre alguma coisa é sobre a impotência em nos relacionarmos uns com os outros em transparência. Over and over again cada uma das personagens se pergunta a si mesmo se é suficientemente bom. Se é suficientemente melhor que os outros. Este é o amor em competição que levou os Baltimore ao abismo num romance muito bem temperado de coerência, mistério, surpresa e subversão. Este livro é sobre desilusão, o peso dos erros e o custo e valor da reparação.



Duas notas. A primeira, não entendo porque é que sendo o rapaz suiço insiste em escrever romances passados nos States, por ventura não poderia a mesma história ser passada nos Alpes?! A segunda, todos os livros do Joël Dicker estão publicados em português pela Alfaguara.

A Websummit na marginal

Pois que estava eu a conduzir na marginal e a ouvir rádio quando logo a seguir ao estado da arte no que ao surto de legionela diz respeito, oiço um trecho do discurso do António Guterres  no Websummit que dizia qualquer coisa como isto: 'Os condutores são a maior força de trabalho onde eu vivo, nos Estados Unidos, mas com a automatização e a robotização teremos de aprender a antecipar o futuro para evitarmos uma taxa de desemprego massiva' (Aqui entre nós, não tenho nada contra o nosso Guterres, que tenho por muito inteligente, ponderado e assertivo, mas este foi um tiro ao lado.) Eu que já vou calma no trânsito tive um acesso de fúria. Como assim o país em que vives agora é capaz de sofrer um bocadinho se esta coisa da tecnologia não presta atenção às pessoas? Eu sou super hiper mega humanista, mas alto lá e pára o baile, a tecnologia é feita por pessoas para pessoas, a tecnologia é a revolução da nossa era que não vai ser travada, o mundo tem que se adaptar, as pessoas têm que se adaptar! Eu tenho que me adaptar! A economia e os estados têm que se adaptar! Está certo que há robots a falar uns com os outros e carros a andar sozinhos no palco, tudo muito impressionante. É claro que há uma necessidade monstra de regulamentação e ética - um código ético tecnológico parece boa ideia. É preciso ética aqui, como é preciso ética em todo lado. Não é por tudo ser possível que tudo deve ser permitido, ou proibido. Mas não, não me venham com dramatismos de que a tecnologia é o mal da nossa era, que vai roubar empregos, que se calhar é melhor desacelerar. Vai deixar de haver motoristas, se calhar vai ser preciso mais gente nas fábricas de chips eco friendly. A sociedade, sem excessos de ego, digo devidamente ponderada e regulamentada, adapta-se porque não tem outro remédio. Eu tenho esperança na tecnologia. Convenhamos que depois da revolução industrial, da revolução médica, a descoberta da penicilina, e por aí fora, o planeta tem sido levado ao limite, os empreendedores do passado não mediram consequências (talvez não imaginassem que o globo fosse, afinal, finito!) Francamente, não chove! Estamos em Novembro e ainda não choveu como deve de ser. Todos os dias: sol! Os nossos campos estão desidratados, a comida da próxima colheita tem que estar nos supermercados e nos nossos pratos na próxima Primavera quer chova quer não chova. Eu, naive, acredito que a tecnologia criada por pessoas da minha geração, e pela que virá, que têm noção de que o mundo precisa de ajuda e se é para agirmos que seja com cuidado, pode de facto ajudar. É a saída. É certo que esta semana com o Websummit em Lisboa se fantasiou um bocado, isto das start ups inovadoras é muito glamoroso mas não é é para todos, a maioria delas cai redonda no chão sem dar frutos logo após a nascença. É preciso conhecimento, discussão, democracia à antiga (informada!), sustentabilidade, noção dos limites e noção das consequências, noção do bem individual e do bem comum, noção do valor de uma gota no oceano.

Eu li no Público num destes dias o João Miguel Tavares dizer que o websummit é interessante para empreendedores como uma conferência de hematologia o é para hematologistas. Se não és empreendedor, o Websummit não te interessa. Faz sentido! Quer me parecer que no palco se apresentaram muitos do problemas, e algumas soluções, que assolam a sociedade, a nossa sociedade: a dos hematologistas e motoristas e jornalistas e advogados e professores. Falou-se de tudo e um par de botas. Eu acredito que o nosso lugar é aqui. Lição de Economia número 1: famílias, empresas e estado. As famílias têm que exigir o que é bom para nós, enquanto gente, mas são as empresas que dão emprego e criam riqueza - qual a mentalidade então dos gestores das empresas dos millenials? Isso importa?! Eu vi (que é como quem diz!) uns tipos apresentarem na web summit um teste de gravidez cuja única graaaaande inovação é ser feito de bambu e não de plástico! Uau! Impressionante, posso pagar mais pelo mesmo só para ser amiga do ambiente? Depende do que a cultura da economia (família, empresas e estado!) disser sobre isso. Não somos todos idiotas, ou totalmente idiotas, o mundo é a nossa casa, e casa onde não há pão... Eu acredito que o crescimento dos últimos séculos não foi previsto, calculado, pensado, mas desta vez a revolução tem medo, tem cuidado. Eu sou millenial e acredito que foram feitos erros no passado (a tantos níveis! Pelas circunstâncias.) que têm que ser corrigidos com uma solução, permitam-me, out of the box.

Back 4 2day

Planear é uma coisa boa, mas ele há coisas que eu não controlo e é assustador. O relógio é uma delas, outra a minha necessidade de dormir para recuperar as energias que esgoto tentando em vão vencer o relógio, uma maratona Aurore contra tempo que só compreendo com clareza quando levo uma sova de tal ordem, que fico com um olho negro e a sangrar do nariz. KO! Round 2. Aurore is over, Portanto a vida quando não é uma formulação da extensão do tempo é o quotidiano banal, um dia e depois outro, alguém a chamar o meu nome: prioridades - a destrinça constante entre o que é mesmo essencial e do que até pode ser acessório, sou chamada a triar o que precisa de ficar feito hoje e o que pode ficar para amanhã (um amanhã qualquer). Nos meus planos já estava tudo feito ontem. Nos meus planos o ruído da exaustão não é mais alto que a música de fundo. Estas semanas, contra a minha vontade, têm sido azuis. I'm blue! E quando fico assim para o azulada, a cor parece definitiva e tinge tudo em meu redor. Que hei-de eu fazer se o dia só tem vinte e quatro horas e o ano doze meses?! Enquanto não sou Deus, tenho que respeitar esta passagem, paragem, do tempo roubado, esperar pela Primavera e querer um dia de cada vez, superar os meus planos e abraçar o dia. Nestas últimas semanas não tenho escrito porque não tenho tido tempo.

Halowe'en

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Se isto não é bruxedo, não sei o que, eu escrevo um texto que versa sobre o adultério, e o que acontece a seguir? Perco a aliança! Pau! O facto de eu ser irremediavelmente distraída, não importa nada, e ter o hábito idiota de, trazendo as mãos ocupadas, tirar, sem consciência, a aliança, também não! Certa vez só ao final do dia quando cheguei a casa, depois de já ter feito bastante, é que me apercebi que andava enganosamente solteira. Precisei de um colega que fazia horas extraordinárias no escritório para me procurar a aliança na secretária e me livrar de uma noite de insónias. Que farsa! Agora não há coincidências, os meus filhos têm, cada um, uma amiga bruxa (não sei de onde vem!) que se junta a nós de vez em quando 'A minha bruxa é muito má, mas não me faz mal a mim, nem ao mano, nem à mãe, nem ao pai porque é muito minha amiga!', no questions asked! Passei 24 horas de dedo despido, e juntos, há lá actividade mais gira para se fazer em família, virámos a casa de uma ponta a outra sem grande resultado, só apenas já uma noite passada, quando experimentei tirar a roupa de cama encontrei a minha aliança embrulhada nos cobertores.

Cá em casa somos uns tristes que não celebramos o Haloween, não é, na verdade, esta nossa postura um finca a pé 'Fora com a cultura que não é nossa!', é que não nos sentimos identificados, esta é uma tradição que não está, para mim, suficientemente enraizada ou justificada, não aquece o coração. Se por um lado nunca eu na minha infância me mascarei de bruxa em Novembro, por outro o primeiro contacto com o trick or treat, foi, pasmem-se, nas aulas de inglês em que aprendíamos costumes da cultura anglo-saxónica. Também não é que eu em criança tivesse o hábito de ir pedir pão por Deus, mas este aprendi pela boca dos meus pais e avós, que era coisa do tempo deles, que pena é ficarmos a ver televisão em vez de irmos com sacos do pão para a rua tocar campainhas. Eu era tímida (qb!) e realmente a última coisa que me apetecia fazer num feriado era ir de porta em porta pedir bolinhos e frutos secos de que ainda por cima não gostava!

A memória que este me dia me traz é o encontro da minha história com a realidade 'morte'. Este era o dia em que ía com os meus pais e avós visitar a campa dos meus bisavós para levar flores. Aqui a morte era uma fantasia quase tão irreal quanto as bruxas e fantasmas nas abóboras, estes mortos eram, afinal, pessoas que só vinham das histórias dos meus pais e avós, gente que eu não me lembrava de ter conhecido alguma vez e tão mais velhos, de outro século!, que atiravam a morte para um tempo e lugar muito, muito, muito distante.

Parece-me que as tradições são laços de cultura entre um povo que ou muito bem que existem ou muito bem que não. Esta vida de uma formiga entre muitas, cada uma com o seu grão de açúcar às costas não dá grande oportunidade de juntar as gentes para fazer renascer tradições - ou a coisa está enraizada, ou o marketing e publicidade são fenomenais e eficientes, ou então deixem-me estar sossegada. O pão por Deus está em vias de extinção e ao Halloween falta-lhe a força do hábito 'da minha mãe, e da mãe dela antes dela, e a mãe da mãe da minha mãe...' (Deixamos essa conversa para Fevereiro, mas talvez seja esta a razão para eu e o Carnaval também não sermos melhores amigos.)

Este Halloween que se celebra por motivo nenhum nasceu na cultura celta mui simplesmente para celebrar o novo ano que entrava com o fim do Verão, altura em que por razões que me transcendem a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos esmorecia e obrigava a uma série de cuidados e diligências, de entre os quais, o cuidado que tinha uma família em deixar alimentos para as almas penadas que passassem à porta, de modo a que corrompidas pelo petisco se abstivessem de aterrorizar os vivos. A Igreja Católica que tem uma presença na nossa cultura muito antiga, acabou por transformar este festival numa celebração católica em honra dos santos mártires e dos defuntos, a comida que era deixada para entreter as almas perdidas, que havia entretanto servido para honrar os antepassados (era servido à mesa o lugar do finado!), na evidência de sobrar sem que alguém o comesse era dada aos pobres que iam de casa em casa perguntar se havia pão por Deus. Transformou-se a época festiva numa demonstração de solidariedade e partilha (valores com muito peso na nossa cultura católica).

Na Irlanda e Escócia, de onde os celtas não foram escorraçados tão cedo na História, os rituais da época em que os mortos saltam do submundo e vagueiam na terra tiveram maior absorção, cheia de lendas deram motivo à criação de uma festa com pompa e circunstância com direito a fogo de artifício e petiscadas com os amigos. No século XIX com uma forte vaga de imigração irlandesa para os Estados Unidos, a festa celta contaminou os States que são agora os maiores exportadores da cultura. Tem graça! Eu fico lindamente vestida de verde pelo que não me oponho em trazer também o Saint Patrick's Day. Depois, talvez o Thanksgiving que não desgosto de peru! E, sei lá, assim de repente, o 4th of July, os santos populares no Verão sabem-me a pouco, eu nem gosto de sardinha prefiro um milhão de vezes um barbecue de enchidos.