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'As Bruxas' de Stacy Schiff, Marcador

domingo, 19 de novembro de 2017

Sinopse

O pânico começou no início de 1692, durante um inverno rigoroso como nenhum outro, em Massachusetts, quando a sobrinha de um pastor religioso começou subitamente a contorcer-se e a gritar.

A notícia espalhou-se rapidamente, deixando confusos até os homens mais esclarecidos e os políticos proeminentes da então colónia inglesa. Começaram as acusações perniciosas, entre vizinhos, maridos e mulheres, pais e filhos. Tudo acabaria apenas um ano mais tarde, mas a histeria resultara já no enforcamento de 19 homens e mulheres. 

Os julgamentos de Salem são um dos momentos em que as mulheres tiveram um papel central na história norte-americana. Com uma clareza devastadora, Schiff mostra-nos as tensões da vida colonial sob o puritanismo e obscurantismo religioso e dos inimigos invisíveis e inventados. 

As Bruxas é a história, verídica e fascinante, de um mistério primordial da história americana, aqui revelado com uma extraordinária atenção ao detalhe e a prosa empolgante de uma historiadora bestseller, vencedora do Prémio Pulitzer e aclamada pelo público.

La Revue

Tive vontade de ler 'As Bruxas' por reconhecer Stacy Schiff, historiadora vencedora de um Pulitzer e  autora de uma aclamadíssima biografia da Cleópatra. À partida a única coisa que eu sabia sobre as bruxas de Salem é que houve, em tempos idos, bruxas em Salem, ou seja, não sabia nada.

'As Bruxas' é um livro de não ficção, desenrola numa narrativa histórica e factual os acontecimentos de uma aldeia perto do Massachussets em 1692 (de tão repetida, nunca mais me esqueço desta data!). O interesse do livro está justamente no modo como põe limpidamente a descoberto como uma série de fantasias se tornaram realidade de grande dimensão numa aldeia remota da Nova Inglaterra colonial.

A Stacy Schiff, que uau! revela uma investigação bibliográfica mui extensa, coloca-nos num lugar de onde podemos observar como no século XVII razão e sobrenatural andavam de mãos dadas.  Fiquei a saber, por exemplo, que o John Locke, o meu querido John Locke, enquanto filosofava sobre a tábua rasa e o contrato social, passava também o tempo a indagar sobre bruxas, espíritos e alquimias. Este é um choque necessário para perceber qual a mentalidade que permitiu Salem. Salem em 1692 era uma pequena sociedade puritana onde a prática religiosa estava infectada de misticismo, os colonos desamparados, longe da civilização, procuram radicar-se e encontram significados em tudo na natureza, é um lugar desamparado onde o sobrenatural sustenta a comunidade - a moral revela-se pejada de magia. Duas miúdas de estatuto na aldeia, filhas de gente importante, note-se, dado o comportamento bizarro foram diagnosticadas pelas altas patentes da comunidade como estando embruxadas. Se as raparigas ficavam mudas, cegas, tinham convulsões e alucinações era porque alguém na aldeia andava metido em feitiçarias. Era evidente que numa sociedade tão beata e devota os espíritos malignos se sentiam tentados a vir perturbar os inocentes fazendo-se valer daqueles cuja natureza era perversa. As bruxas malvadas inferiam golpes as estas pobres míudas.

De repente desabrochou uma epidemia, os vizinhos acusavam-se, os maridos acusavam as mulheres, os pais, os filhos, os irmãos. Um pandemónio. Pelo sim pelo não antes estar do lado do acusador que do lado do acusado, e que cepticismo era um pecado grave, nos documentos que Schiff cita constam inúmeros testemunhos de gente de quem se espera juízo (digo gente com papel relevante na sociedade!) a jurar que viram gente voar montada numa vassoura. Para efeitos de justiça, tão grave um roubo ou um homicídio como andar a visitar os vizinhos em sonhos. Daqui resultaram centenas de acusações, um imbróglio processual, uma insegurança tremenda, uma histeria colectiva e 19 condenações à forca. Nesta altura Salem era uma aldeia claustrofóbica.

Se hoje não acreditamos em bruxas, eu, pelo menos, não deixo de acreditar em intrigas.

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